sexta-feira, 29 de maio de 2020

Sobre o amor

(pintura Angela Felipe)

Ar grave como só em momentos
de solenidade maior,
dissera - amo-te…
e acrescentara um nome.
Não o dela que ouvia
mas o  próprio nome 
de quem o pronunciava,

Não o dela que esperava reconhecer-se,
na voz primeira do amor. 
Não o dela. Nem sequer uma assinatura
que não se assina no vento.
Era tão-só uma evocação de si mesmo
diante da imagem que lhe fora espelho.

Ela colocou-lhe a feminina mão no peito,
escutando.
O canto lastimoso 
de um rouxinol ergueu-se do nada.
Soube então que 
só a si próprio amava,
aquele que ardentemente
ali floria 
como um lírio 
em jardim alheio.

Sobre o amor,
pouco mais sabe
que isto.


Lídia Borges