(Vladimir Kush)
I
Desliza por um fio da
memória
um rumor de frases tontas,
a construir castelos
de nuvens. Arrebatadores.
Daí ao embate das ondas
nas muralhas
é um rápido mergulho.
II
Um pedaço de ternura,
um presságio de papoilas
macio ao tato
a irrigar os pulmões.
E a obtusidade do que é feito
para ser visto.
A alma vê-se sem se mostrar.
III
Desacorrentadas do real,
outra vez, as mãos procuram
uma forma verosímil
de fazer respirar por guelras
os verbos de água.
Uma maré de algas
bate à porta do poema.
Todas as luzes permanecem
caladas.
Ninguém abre.
Lídia Borges
