domingo, 7 de junho de 2020

Constatações

(Vladimir Kush)

I

Desliza por um fio da memória 
um rumor de frases tontas,
a construir castelos
de nuvens. Arrebatadores. 
Daí ao embate das ondas 
nas muralhas
é um rápido mergulho.

II

Um pedaço de ternura,
um presságio de papoilas
macio ao tato
a irrigar os pulmões.
E a obtusidade do que é feito
para ser visto.

A alma vê-se sem se mostrar.


III

Desacorrentadas do real,
outra vez, as mãos procuram 
uma forma verosímil
de fazer respirar por guelras 
os verbos de água.

Uma maré de algas
bate à porta do poema.
Todas as luzes permanecem 
caladas

Ninguém abre.





Lídia Borges