I
Pedes-me que escreva.
Acreditas ser liso e
plácido
o caminho para o poema.
Pudesses espreitá-lo
antes de virar
pássaro...
Sim, também eu tenho
um pássaro azul no peito
que quer sair
e sou também dura com ele,
mas não lhe despejo whisky
em cima
nem
inalo fumo de cigarros
para lhe anuviar o canto.
Limito-me a cortar-lhe uma
pena,
todos os dias.
Há de deixar de querer sair.
Mas, se à noite o vejo triste,
bebo um trago largo de ternura
e ele canta cá dentro,
um bocadinho.
Lídia Borges
