sexta-feira, 28 de agosto de 2020

O Gusto


de: Histórias dos miúdos de ontem para os miúdos de hoje

O Gusto era o mais velho da sala. Era repetente. Já andava na quarta classe pela terceira vez e estava em risco de não ser levado a exame, outra vez. A professora zangava-se sempre com ele, mas ficava especialmente enfurecida quando o Gusto adormecia e deixava a cabeça a pingar para a carteira, (carteira, era como chamávamos às mesas das salas de aulas que tinham os bancos agarrados para que não pudéssemos arrastá-los).

 Nós não sabíamos como o Gusto conseguia adormecer no meio da aula de aritmética, enquanto nós contávamos e recontávamos todos os dedos que tínhamos para resolver problemas tão complicados que só com três ou quatro operações de enfiada se chegava a uma solução. E, se por azar, (ou por não sabermos mesmos), errássemos algum cálculo, lá se ia o recreio daquele dia. Ficava-se na sala de aulas a moer e a remoer tabuadas e palavras difíceis que enchiam a lousa dos dois lados.

O Gusto não se importava de ficar de castigo no recreio. Não te importas, como? - perguntávamos, muito admirados, nós que estávamos sempre mortinhos por ir jogar à macaca, ao pião, ao jogo das caricas, às danças de rodas, com cantigas engraçadas a acompanhar: indo eu, indo eu/ a caminho de Viseu/encontrei o meu amor/ai Jesus que lá vou eu… Não te importas, como? Não gostas de brincar?

 Ele dizia que o pior eram os “bolos”, as formigas esfaimadas que ficam a morder furiosamente as mãos a cada reguada. - Até se veem as estrelas - diziam os que provavam desses bolos amargos. Eu não sabia ainda como era aquela dor de mil formigas a penicarem as mãos, mas fechava muito os olhos de cada vez que a régua de madeira batia em cheio nas mãos grossas de unhas sujas do Gusto. E isso acontecia  sempre que ele errava uma conta ou se perdia na tabuada ou dava muitos erros no ditado.    

Eu sabia a tabuada toda, (letra e música), e quase nunca me enganava nas contas ou no ditado. Mas com o tempo fui percebendo que não sabia fazer muitas coisas que o Gusto fazia bem: guardar um rebanho, ordenhar as vacas, levá-las ao pasto, mudar-lhes a cama... Mudar a cama às vacas? - interrogávamos, curiosos? – Sim, limpar os currais. Não sabia eu que os lençóis em que o gado se deitava eram carradas de mato roçado à força de braços e golpes de enxada e que o Gusto ajudava o pai nessa e noutras tarefas muito duras. Ele era uma criança como nós, mas trabalhava já como um homem, antes e depois das aulas. Nas épocas em que os trabalhos do campo apertavam, ele faltava à escola e  quando não faltava, aprendia um pouquinho, apanhava reguadas e às vezes dormitava porque tinha sempre o sono atrasado e o corpo a pedir-lhe cama. Pudera, levantava-se com os galos, ainda o Sol esfregava os olhos. Havia muito que fazer antes da escola. Os animais tinham de comer...

Se o Gusto sonhava? Acho que sim: o que ele mais queria era tirar a carta para guiar o trator que havia de comprar, um dia, quando fosse maior e todos lhe chamassem senhor Augusto. Era por isso que ia à escola, para ter o diploma da quarta classe. Sem ele, nem carta, nem trator, nem sonhos...

***

Lídia Borges, uma das cinco pequenas histórias de -  Histórias dos miúdos de ontem para os miúdos de hoje. Inédito.