Não é preciso abrir uma porta para te deixar
entrar. Tu tens a chave dos meus pensamentos.
Mas a da imaginação, perdeste-a, e não sabes onde. Suspeito até que nunca a terás tido. E isso faz-te penar, esmurrar o ar, dar cabeçadas no escuro, como um cego desorientado. Tu não sabes que um poeta é também um contador de histórias; histórias que nunca lhe foram contadas, por isso, tantas vezes, cortadas, imperfeitas, incompletas; histórias que vivem agarradas às palavras, como lapas às rochas. Se não sabes isto, é porque, diante de ti, nunca as palavras se desnudaram. É porque para ti elas não passam de letra morta, coisa de nada, folhas velhas no vento. É porque não as sabes amar nem as respeitas. É porque perdeste também a chave dos seus mistérios, ou nunca a tiveste. És um perdedor convicto.
Sentas-te no sofá, ao lado do gato. Nem reparas
que se mudou… para o teu lugar. Escuto a voz que apertas entredentes como
um pobre pássaro que não fugiu a tempo do teu falar desengonçado: também
eu pertenço aqui.
Nem um só pelo do felino se move, e isso faz-me
pensar que talvez não existas.
Ou que terás encontrado, finalmente, a porta da chave que perdeste. Não levantes o braço para o batente, não te maces.
Aqui não falta ninguém.
Lídia Borges
(pintura:Ann Mortimer)
