Era a palavra que o levava
e ele ia. Pelo pé do lápis seguia
sorumbático,
esquecido da sua função de escriba.
Diluia-se em [des]sentires
e [des]viveres.
Valia-lhe ter sido
colecionador de rumores:
possuía gorjeios de pássaros
para acordar as manhãs,
rezas devotas de louva-a-deus
em abundância,
estremecimentos de sininhos silvestres
trazidos da infância e
sorrisos de corolas rendadas
Era um poeta apaixonado
pela palavra outrora.
Outrorava-se frequentemente.
Tinha inclinações de sombra,
vocações de salgueiro da beira-rio.
Não raras vezes
batia à porta da própria casa
para desvendar solidões.
Mais das vezes
não se encontrava lá.
Lídia Borges
(reescrito)
