segunda-feira, 21 de março de 2022

Renda

 


Era a palavra que o levava

e ele ia. Pelo pé do lápis seguia

sorumbático,

esquecido da sua função de escriba.

Diluia-se em [des]sentires 

e [des]viveres.

 

Valia-lhe ter sido

colecionador de rumores:

possuía gorjeios de pássaros

para acordar as manhãs,

rezas devotas de louva-a-deus

em abundância,

estremecimentos de sininhos silvestres

trazidos da infância e

sorrisos de corolas rendadas


Era um poeta apaixonado

pela palavra outrora.

Outrorava-se frequentemente.

Tinha inclinações de sombra,

vocações de salgueiro da beira-rio.

Não raras vezes

batia à porta da própria casa

para desvendar solidões.

Mais das vezes

não se encontrava lá.


Lídia Borges

(reescrito)