sábado, 21 de maio de 2022

Brevidades



Vejo como os pássaros
repetem os dias, 

alegremente,

Se os dias repetem os pássaros

isso já não sei.

O que sei

é que todos os dias os pássaros

se repetem

alegremente

 

Cantam sem que

verso algum queira cantá-los.

Quem de entre os bardos do reino

nos dias de hoje, se lembraria

de pôr um pisco ou uma cotovia

num bloco sólido de semântica?

A quem encantaria?

 

Quanto a mim, desenganem-se:

minhas habilitações líricas

vêm da água que passa

à minha porta e só nela posso banhar-me.

Sofro de sonolências várias

para escritas de capa e batina.


De palavras-abundância, eu enjoo.

Gosto mesmo é de palavras-sede

de palavras-voo.

Por isso,

a reverberação dos pássaros

repete-me os dias,

no poema 

como na cintilação 

das árvores deslumbradas.


Alegre ou tristemente.



Lídia Borges