Vejo como os pássaros
repetem
os dias,
alegremente,
Se os dias repetem os pássaros
isso já não sei.
O
que sei
é que todos os dias os pássaros
se repetem
alegremente
Cantam
sem que
verso algum queira cantá-los.
Quem de entre os bardos do reino
nos
dias de hoje, se lembraria
de
pôr um pisco ou uma cotovia
num bloco sólido de semântica?
A quem encantaria?
Quanto
a mim, desenganem-se:
minhas
habilitações líricas
vêm da água que passa
à minha porta e só nela posso banhar-me.
Sofro de sonolências várias
para escritas de capa e batina.
De palavras-abundância, eu enjoo.
Gosto mesmo é de palavras-sede
de palavras-voo.
Por isso,
a
reverberação dos pássaros
repete-me os dias,
no poema
como na cintilação
das árvores deslumbradas.
Alegre ou tristemente.
Lídia Borges
