domingo, 15 de maio de 2022

Desamparados

(pintura: Mihaela Mihailovici)

Levantam-se todos os dias

cedo ou tarde 

para trabalhar

para procurar trabalho

para decifrar o latim de promessas vãs

para catar restos em caixotes do lixo

nas traseiras dos hipermercados

para descer os degraus corroídos da loucura

para mirar o horizonte embaciado, sem barcos.


Sofrem sem que uma 

só esperança lhes minta.

 

No fim do dia voltam a casa 

para a sopa que lhes afaga o corpo cansado

para os cartões  no chão

onde se  deitam como reis 

sobre a sua pobreza.


Levantam-se, 

muitos anos mais velhos, a cada dia 

cedo ou tarde 

para trabalhar

para procurar trabalho

para decifrar o latim de vãs promessas 

para catar restos em caixotes do lixo

nas traseiras dos hipermercados

para descer os degraus corroídos da loucura 

para mirar o horizonte embaciado, sem barcos.

E nenhum vento que os perturbe.

 

Esquecem-se de sofrer. Já nenhuma miséria lhes falta.


Lídia Borges