Quando as palavras vinham descalças
pela margem do rio a pedir água
eu era feliz.
Palavras descalças, como se sabe,
pisam consciências levemente,
como quem dança.
E a música era toda a Natureza.
Vem mais tarde de um lugar inóspito
a brusca pulsão do poema.
Implosão: vórtice, desequilíbrio,
queda súbita de um braço, o ombro vazio
o tronco pendente, a tentar salvar-se.
Um pequeno embrião
forma-se à altura da alma
e clama a luta contra o real
Pede: semeia, semeia
a escuridão que te dou.
Lavra a noite
como se terra ou nuvem
contra a tua noite.
Inaugura essa outra realidade que intuis.
É parte somente, esta, em que te movimentas.
Como ela, és de ti parte somente.
Inventa a unidade impossível.
Um corpo sem um braço, um ombro vazio
um tronco pendente
são fundamentos irrevogáveis
que enfim justificam
a utilidade concreta de escrever poemas.
Lídia Borges
