sexta-feira, 6 de maio de 2022

Palavras calçadas



Quando as palavras vinham descalças 

pela margem do rio a pedir água 

eu era feliz.

 

Palavras descalças, como se sabe,

pisam consciências levemente,

como quem dança.

E a música era toda a Natureza.

 

Vem mais tarde de um lugar inóspito

a brusca pulsão do poema.

Implosão: vórtice, desequilíbrio,

queda súbita de um braço, o ombro vazio

o tronco pendente, a tentar salvar-se.

 

Um pequeno embrião

forma-se à altura da alma

e clama a luta contra o real

Pede: semeia, semeia 

a escuridão que te dou.

Lavra a noite

como se terra ou nuvem

contra a tua noite.

 

Inaugura essa outra realidade que intuis.

É parte somente, esta, em que te movimentas.

Como ela, és de ti parte somente.

Inventa a unidade impossível.


Um corpo sem um braço, um ombro vazio

um tronco pendente

são  fundamentos irrevogáveis

que enfim justificam 

a utilidade concreta de escrever poemas.



Lídia Borges