quarta-feira, 24 de maio de 2023

Desvio

 


Desculpa, mas agora não posso ouvir-te.

Anda um poema a cirandar em redor da minha cabeça.

Fala-me dos Meios. Se chegar a escrevê-lo terá por título:

Os Meios

Nunca estive nos Meios. Não sou de lá.

Não tenho lá família nem amigos,

não possuo casa de habitação permanente

nem sequer morada de férias, nos Meios.

É uma terra com paisagens exóticas

extravagâncias e excentricidades muitas,

assim o creio, vá-se lá saber porquê.


De um e de outro lado dos Meios ficam os Princípios e os Fins

Gosto de viver nos Princípios. Esse é, aliás, o meu lugar de pertença mais natural.

Nunca conheci outro. É um lugar onde a água é transparente

e canta trovas antigas que não se ouvem nos vales dos Meios.

 

Estes cerram-se hermeticamente como ouriços

sempre que algum desconhecido de Princípios

se revela capaz de abeirar-se da fímbria dos Fins.

 

Os Fins ficam sempre longe dos dotados de Princípios

e paredes meias com os medianos de Meios.


Desculpa, o que dizias? O poema?! 

Ah, esquece. 

Não tem meios para atingir os fins.


Lídia Borges