Desculpa, mas agora não posso ouvir-te.
Anda um poema a cirandar em redor da minha
cabeça.
Fala-me dos Meios. Se chegar a escrevê-lo
terá por título:
Os Meios
Nunca estive nos Meios. Não sou de lá.
Não tenho lá família nem amigos,
não possuo casa de habitação permanente
nem sequer morada de férias, nos Meios.
É uma terra com paisagens exóticas
extravagâncias e excentricidades muitas,
assim o creio, vá-se lá saber porquê.
De um e de outro lado dos Meios ficam os Princípios e os Fins
Gosto de viver nos Princípios. Esse é, aliás, o meu lugar de pertença mais natural.
Nunca conheci outro. É um lugar onde a
água é transparente
e canta trovas antigas que não se ouvem nos vales dos Meios.
Estes cerram-se hermeticamente como ouriços
sempre que algum desconhecido de Princípios
se revela capaz de abeirar-se da fímbria dos
Fins.
Os Fins ficam sempre longe dos dotados de Princípios
e paredes meias com os medianos de Meios.
Desculpa, o que dizias? O poema?!
Ah, esquece.
Não tem meios para atingir os fins.
Lídia Borges
