sábado, 20 de maio de 2023

Macieira

 

Gustav Klimt, Macieira (1912)

Não sei por que escrevo isto, hoje, por que me queixo se eu própria já me tinha arreliado, mais do que uma vez, pela demora em a remover dali. Um tronco escaqueirado e uma cabeleira desgrenhada de lenha seca a servir-lhe de copa. Convenci-me de que morrera (de pé, como qualquer árvore) depois de, apreensiva, a vigiar por largo tempo, quando, inverno ainda, a senti diferente, cabisbaixa, a base do tronco tomada por grandes cogumelos, a parte exterior do tronco a abrir-se em fendas profundas. Cortava um canito em busca do verde interior e dele, nem sinal! Quando, no início da primavera, as árvores em volta se encheram de folhas e flores, ela permaneceu estática, prisioneira da sua escuridão. Não restava mais dúvida nenhuma. Diagnóstico feito - cancro do colo da macieira ou podridão do colo e das raízes. Tarde demais para a salvar. Havia, então, que removê-la do lugar que habitara por quase quarenta anos.

Hoje, ao vê-la tombar, atravessada pelos impiedosos dentes da motosserra, duas lágrimas teimosas subiram-me aos olhos e lá do fundo da memória emergiram imagens, doces como as maçãs vermelhas que dava: minha filha, criança ainda, a ler, recostada na concha dos seus ramos, baixinhos – “parece uma casinha de cortinas verdes, mamã”. Depois as maçãs… levantava-se um braço, tocava-se numa delas com a ponta dos dedos e pronto - o fruto caía-nos na mão, sem vestígios de pecado, qual dádiva divina. Sumarentas, deliciosas! Na hora da colheita, um saquinho sempre à mão para encher e oferecer a quem aparecesse; o doce de maçã servido ainda morno à sobremesa; a compota para guardar... 

E a estranheza de pensar no que direi daqui por diante – Ali, naquele lugar vazio, havia uma macieira…

Tenho andado, desde manhã, a evitar aquele lado da casa. Há luz a mais e, em frente aos olhos, um espaço vazio que transmigra para dentro do peito como uma infinita saudade. Debaixo da macieira, nos últimos verões, sentava-se minha mãe, velhinha, a escutar os pássaros e a tecer lembranças que, por vezes, a faziam sorrir.


Lídia Borges