Não sei por que escrevo isto, hoje, por que me queixo se eu própria já me
tinha arreliado, mais do que uma vez, pela demora em a remover dali. Um tronco escaqueirado
e uma cabeleira desgrenhada de lenha seca a servir-lhe de copa. Convenci-me de
que morrera (de pé, como qualquer árvore) depois de, apreensiva, a vigiar por
largo tempo, quando, inverno ainda, a senti diferente, cabisbaixa, a base do
tronco tomada por grandes cogumelos, a parte exterior do tronco a abrir-se
em fendas profundas. Cortava um canito em busca do verde interior e dele, nem
sinal! Quando, no início da primavera, as árvores em volta se encheram de
folhas e flores, ela permaneceu estática, prisioneira da sua escuridão. Não
restava mais dúvida nenhuma. Diagnóstico feito - cancro do colo da macieira
ou podridão do colo e das raízes. Tarde demais para a salvar. Havia, então,
que removê-la do lugar que habitara por quase quarenta anos.
Hoje, ao vê-la tombar, atravessada pelos impiedosos dentes da motosserra, duas lágrimas teimosas subiram-me aos olhos e lá do fundo da memória emergiram imagens, doces como as maçãs vermelhas que dava: minha filha, criança ainda, a ler, recostada na concha dos seus ramos, baixinhos – “parece uma casinha de cortinas verdes, mamã”. Depois as maçãs… levantava-se um braço, tocava-se numa delas com a ponta dos dedos e pronto - o fruto caía-nos na mão, sem vestígios de pecado, qual dádiva divina. Sumarentas, deliciosas! Na hora da colheita, um saquinho sempre à mão para encher e oferecer a quem aparecesse; o doce de maçã servido ainda morno à sobremesa; a compota para guardar...
E a estranheza de pensar no
que direi daqui por diante – Ali, naquele lugar vazio, havia uma macieira…
Tenho andado, desde manhã, a evitar aquele lado da casa. Há luz a mais e, em frente aos olhos, um espaço vazio que transmigra para dentro do peito como uma infinita saudade. Debaixo da macieira, nos últimos verões, sentava-se minha mãe, velhinha, a escutar os pássaros e a tecer lembranças que, por vezes, a faziam sorrir.
Lídia Borges
