domingo, 3 de setembro de 2023

No longe que não se vê

 


Então, havia que separar

as palavras das palavrinhas,

dar-lhes destinos de trigo e joio.

 

As primeiras, sem ortografia conhecida,

assombro apenas, halo de luz

alheada e doce

no longe que não se vê.

 

As segundas rompiam da terra,

do labor das mãos no campo dos signos.

Searas de paciência e luta,

a cesura dos nomes sem o sangue

da foice cega.

 

Do diálogo, tantas vezes absurdo,

de sobejos e observações,

aqui e ali, inteligível,

o espanto brotava.

 

Lídia Borges


(Foto: as minhas mãos, apanhadas pela câmara do fotógrafo Carlos Teixeira, numa entrevista dada a Patrícia Ferreira.)