Como um sopro de nada
a tua voz
derrama-se no meu coração
sem ruído nem
cântico.
Presença somente.
Sei de ti debaixo de uma claridade rara
e inspiro e expiro mais devagar,
não vá a
aragem querer desdizer
a consistência
do instante.
Nenhuma
palavra ousa a subida aos lábios.
De vidro quebradiço
os alfabetos,
de candura e
miosótis o silêncio
que os define.
Mãos mendigas, as nossas, agarram-se
à insuportável ternura dos dias
que descem rumo ao mar.
Lídia Borges, in "Desarrumos" (2025)
(imagem: pinterest s/ind. autoria)
