domingo, 2 de março de 2025

Aragem


Como um sopro de nada

a tua voz derrama-se no meu coração

sem ruído nem cântico.

Presença somente.

Sei de ti debaixo de uma claridade rara

 

 e inspiro e expiro mais devagar,

não vá a aragem querer desdizer

a consistência do instante.

 

Nenhuma palavra ousa a subida aos lábios.

De vidro quebradiço os alfabetos,

de candura e miosótis o silêncio

que os define.

 

Mãos mendigas, as nossas, agarram-se                                       

à insuportável ternura dos dias

que descem rumo ao mar.


Lídia Borges, in "Desarrumos" (2025)

(imagem: pinterest s/ind. autoria)