Quero de volta
o canto das aves.
Escuto-as ao
longe.
Será que sabem
ainda
construir a primavera
no meu coração?
Quero de volta a dança das mãos
nas notas irrequietas do piano.
Quero os gemidos longos do violino
a sussurrar enleios nos meus ouvidos.
Quero regressar a Vivaldi,
Frédéric Chopin, Strauss...
Não mais a música fechada numa caixinha
de silêncios onde dorme
a única bailarina do mundo
que não sabe dançar.
Não mais as mãos tocando a pedra.
Antes a voz da brisa nas folhas do limoeiro,
o amarelo vivo dos frutos.
A porcelana fina
das frésias brancas, nos dedos
E nos olhos, o sorriso que me dirigem
Em sinal de perdão pelo desleixo.
Quero regressar,
Voltar a morar em mim.
Lídia Borges
(reeditado)
