segunda-feira, 14 de abril de 2025

Tela



Gostava de ver passar alguém no caminho
junto àquela porta sempre aberta de ontem.
Um camponês, a enxada ao ombro,
no regresso a casa, ao fim da tarde
como se, paulatinamente,
atravessasse um poema de Fiama.

Tudo assim certo, antiquíssimo, pacato.
O gato enrolado na soleira da porta
cheio de eternidade,
as escadas de pedra, os gerânios ardendo.

Um camponês, calça arregaçada, pés descalços,
a enxada ao ombro.
Ao fundo, o sol definhando entre laranjas
e ocres ensanguentados.

Que é feito da tela onde
se perderam tantas vezes
meus olhos indiscretos de criança?

Lídia Borges, in Desarrumos, 2025

(Imagem: Pinterest)