sábado, 30 de agosto de 2025

Cronópios

  





Os cronópios são aqueles que ao lavar os dentes à janela espremem todo o conteúdo do tubo só para verem esvoaçar grinaldas de pasta dentífrica cor-de-rosa (…) quando se deparam com uma tartaruga, desenham-lhe uma andorinha. (…) A criação mais feliz e absoluta de Cortázar.»

Do prefácio de Italo Calvino em Histórias  Cronópios e de Famas, Julio Cortázar, 1962.





I

Cada vez há menos cronópios, Cortázar.

Se soubesses como andam sumidos!

 

Por vezes, em momentos de atenção suprema

julgo ainda pressenti-los. Elevo-me,

os pés apartando-se do solo,

estendo as mãos e milagrosamente

apanho dois ou três. Que sorte!   

Posso assim verificar a preceito

a sua composição, se são ou não ilusão, somente.

 

Miro-os à lupa, de um e de outro lado:

muito verdes, muito tímidos, muito ingénuos, quase crianças

idealistas incontidos, ares de desordem

a contaminar certezas, impurezas, esperanças.

 

É fascinante vê-los flutuar leves sobre tudo:

pessoas, objetos, ideias, palavras.  

Todavia, imperfeita,  a doce aparição evola-se

se permito a meus pés que toquem o chão.

 

II

Quando se tem a fortuna

de encontrar uma criação completa de cronópios

aprende-se logo a moldar bolinhas de sabão mesmo sem sabão 

e a dirigir bailados aéreos de sementes de dentes-de-leão, 

alegremente soprados,

 

e as borboletas…

(podem ser amarelas, estas,

como as de Buenos Aires, naquele teu dia último, Cortázar)

as borboletas pequeninas, em bandos

apanham a ponte aérea da primavera para o outono,

e... a epifania acontece,

grinaldas de flores e flocos de todas as cores

esvoaçam sob um céu que entontece.

 

Os cronópios estão a pentear as crinas

às varandas da insubordinação.

Não. Não são apenas ilusão!


Lídia Borges (reescrito)

(imagem: Pinterest s/ ind. autoria)