Os cronópios são aqueles que ao lavar os dentes à janela espremem todo o conteúdo do tubo só para verem esvoaçar grinaldas de pasta dentífrica cor-de-rosa (…) quando se deparam com uma tartaruga, desenham-lhe uma andorinha. (…) A criação mais feliz e absoluta de Cortázar.»
Do prefácio de Italo Calvino em Histórias Cronópios e de Famas, Julio Cortázar, 1962.I
Cada vez há menos cronópios, Cortázar.
Se soubesses como andam sumidos!
Por vezes, em momentos de atenção suprema
julgo ainda pressenti-los. Elevo-me,
os pés apartando-se do solo,
estendo as mãos e milagrosamente
apanho dois ou três. Que sorte!
Posso assim verificar a preceito
a sua composição, se são ou não ilusão, somente.
Miro-os à lupa, de um e de outro lado:
muito verdes, muito tímidos, muito ingénuos, quase crianças
idealistas incontidos, ares de desordem
a contaminar certezas, impurezas, esperanças.
É fascinante vê-los flutuar leves sobre tudo:
pessoas, objetos, ideias, palavras.
Todavia, imperfeita, a doce aparição
se permito a meus pés que toquem o chão.
II
Quando se tem a fortuna
de encontrar uma criação completa de cronópios
aprende-se logo a moldar bolinhas de sabão mesmo sem sabão
e a dirigir bailados aéreos de sementes de dentes-de-leão,
alegremente soprados,
e as borboletas…
(podem ser amarelas, estas,
como as de Buenos Aires, naquele teu dia último, Cortázar)
as borboletas pequeninas, em bandos
apanham a ponte aérea da primavera para o outono,
e... a epifania acontece,
grinaldas de flores e flocos de todas as cores
esvoaçam sob um céu que entontece.
Os cronópios estão a pentear as crinas
às varandas da insubordinação.
Não. Não são apenas ilusão!
Lídia Borges (reescrito)
(imagem: Pinterest s/ ind. autoria)
