Ficam-se-me assim, as palavras
Sem a ordem inflexível da sintaxe
A racionalidade da semântica
Sem a fluidez da água
a limpidez da luz.
Ficam-se-me assim, as palavras
Dobradas sobre si
Numa redondez de bicho tímido.
Um nó preso na garganta
Nascente e foz em simultâneo
Da viagem, perdidas foram
As vozes que falavam por mim.
Não admira que para te ter agora no poema
Precise de mais que um tu todo certezas,
Planeamento, intromissão
Palavra mole em verso de porta perra.
Não admira, portanto, que precise mais
Do que de um simples poema para te ler.
Bastar-me-ia talvez um poema simples:
Um tu com tempo para a palavra, para a
ternura.
Alguma coisa viva que suportasse
Este meu novo contigo.
Lídia Borges (2025)
(imagem: Pinterest)
