domingo, 24 de agosto de 2025

Desencontro

 


Ficam-se-me assim, as palavras

Sem a ordem inflexível da sintaxe

A racionalidade da semântica

Sem a fluidez da água

a limpidez da luz.

 

Ficam-se-me assim, as palavras

Dobradas sobre si

Numa redondez de bicho tímido.

 

Um nó preso na garganta

Nascente e foz em simultâneo

Da viagem, perdidas foram

As vozes que falavam por mim.

 

Não admira que para te ter agora no poema

Precise de mais que um tu todo certezas,

Planeamento, intromissão

Palavra mole em verso de porta perra.

 

Não admira, portanto, que precise mais

Do que de um simples poema para te ler.

Bastar-me-ia talvez um poema simples:

Um tu com tempo para a palavra, para a ternura.

Alguma coisa viva que suportasse

Este meu novo contigo.

 

Lídia Borges (2025)

(imagem: Pinterest)