Histórias Bizarras
Há livros que me acontecem de uma maneira inesperadamente viva, carnal, uterina, diria até. Enquanto os folheio, sou invadida por uma sensação que nada tem de distância, de estranheza, são antes o regresso a sítios que não me lembro de ter visitado. Tudo e nada, neles, me surpreende e cativa. As formas, os sons, os cheiros, são-me milimetricamente próximos, como se construídos dos mesmos materiais de que é feita a minha casa. Pergunto-me por vezes incrédula o que terão em comum as florestas da Polónia de Tokarczuk, húmidas e gélidas, os troncos das árvores, habitados por criaturas misteriosas, de mundos outros, com as minhas florestas interiores, predominantemente solares, em quase tudo dissemelhantes: outra geografia, outra flora, outra fauna, outro clima, outra literatura, deslembrada esta, quiçá, da universalidade que a sustém. À medida que avanço nas páginas destas Histórias Bizarras, deparo com criaturas que me são familiares, lugares desenhados pelo imaginário dos quais perdi os caminhos. Algumas dessas criaturas mantenho-as abrigadas nos troncos de histórias que escrevi para os alunos/crianças, narrativas saídas do meu laboratório secreto, que nunca lograram respirar o ar do prelo, talvez por as achar eu inverosímeis, aos olhos dos atinados da vida.

Sobre estas crianças verdes (que julgo terem nascido a partir dos relatos históricos sobre as crianças verdes de Woolpit, na Inglaterra do século XII) só agora com Olga Tokarczuk, neste livro, fica devidamente clarificada a sua origem (digo eu) por via da imaginação prodigiosa da escritora, Prémio Nobel da Literatura em 2019.
Embora possa parecer roçar a presunção, depois de ler "As Crianças Verdes", não pude deixar de estabelecer paralelo com outras crianças que hibernam, desde há muito, em páginas minhas. São crianças minúsculas e
misteriosas, capazes de apagar pesadelos, aniquilar ameaças e abrir portas aos sonhos bons. Não
tão verdes e lunares, como as de Olga Tokarczuk, é verdade, mas, como essas, retiradas do espaço real, para não sujarem os olhos com tanto
lixo, indevidamente gerado.
Lídia Borges
[…]
Às vezes, quando trepam à árvore mais
alta, o nosso mundo assoma-se à distância, vêem o fumo das aldeias incendiadas
e sentem o cheiro dos corpos queimados. Nessas alturas, desaparecem rapidamente
sob as folhas, pois não querem sujar os olhos com tais vistas, nem estragar o
nariz com tais cheiros.
[…]. Julgam que somos irreais, que somos
um sonho mau.
(Itálicos - Olga Tokarczuk,
2022, Histórias Bizarras.)
