Por que deixas
de chamar, Poesia?
Por que não a
ouves tu subir a madrugada
com um bolso
cheio de estrelas
e o outro de restos de frutos podres?
Tens contigo as
matérias que servem o poema.
Estão à distância
de um braço:
astros e
detritos. De que lado acordaste?
Nada disso
sacrificas à forma do poema.
Nem o doce de
figo a ferver lentamente na cozinha,
irradiando aromas
de figo, limão e canela pela casa
nem a guerra cega a
pulsar impetuosa atrás da cabeça
Ecos ocos, ócio
obsceno e a morte a lavrar, a lavrar…
Não te chama, a
Poesia!
O poema quer mais
coração, mais veias, mais alma e pulso.
É de azedia e
socos no estômago, a escuma dos dias.
O doce de figo está no ponto.
Último ponto: deixar
arrefecer e enfrascar.
Um frasco é coisa pouca para o poema
que necessita de escapar à conservação em vácuo.
Lídia Borges
