segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Doce de figo

 

 


Por que deixas de chamar, Poesia?

Por que não a ouves tu subir a madrugada

com um bolso cheio de estrelas

e o outro de restos de frutos podres?

 

Tens contigo as matérias que servem o poema.

Estão à distância de um braço:

astros e detritos. De que lado acordaste?

 

Nada disso sacrificas à forma do poema.

Nem o doce de figo a ferver lentamente na cozinha,

irradiando aromas de figo, limão e canela pela casa

 

nem a guerra cega a pulsar impetuosa atrás da cabeça

Ecos ocos, ócio obsceno e a morte a lavrar, a lavrar…

Não te chama, a Poesia!

O poema quer mais coração, mais veias, mais alma e pulso.

É de azedia e socos no estômago, a escuma dos dias.

 

O doce de figo está no ponto.

Último ponto: deixar arrefecer e enfrascar.

Um frasco é coisa pouca para o poema

que necessita de escapar à conservação em vácuo.

 

Lídia Borges