sábado, 23 de maio de 2026

In(utilidades)



Sem vaidade que se veja

silvestres da folha à seiva

de lindeza sem igual

brotaram as capuchinhas

como se fossem minhas,

ao fundo do quintal.

 

Chamam-lhes chagas,

pragas invasoras…

Por mim

não lhes noto ares de tal.

Sem ruído, seu colorido

acolhe e enaltece.

creio até ser em seu seio

que o sol amadurece.

 

Não se ralem os prosaicos,

lentes foscas no olhar, 

sete dias por semana

sete noites sem parar,

a culpar a Poesia

 

Apenas Ser sem enformar,

que interessa a capuchinha

inútil, sem eira nem beira.

Mal empregues os versos

a uma vulgar trepadeira.

 

Acontece-me não saber

separar a Poesia

das coisas do dia a dia 

onde por vezes se aninha
mesmo à frente do meu ver

um bouquet de capuchinhas.

 

Mais informo, sem desdém,

[julgo ser o meu dever]

que desta flor do campo

tudo se pode comer.

Semente, folha, flor 

e a beleza que tem,

tal como a Poesia 

que é comestível, também.

 

E lá vai na enxurrada

o  gasto e velho argumento  

"não serve para nada".

 

 

Lídia Borges