quinta-feira, 23 de julho de 2026

A persistência do espanto

  

I

Longe da catástrofe do mundo

há flores que continuam a abrir

pássaros que continuam a cantar

afinados como sempre cantaram

ribeiros que reescrevem,

dia a dia, hora a hora,

poemas em pautas de pedra e limos.

Crianças continuam a nascer pelo dia fora,

madrugada adentro.

 

O ventre das mães é um mundo inchado 

redondo de dor e de exaltação,

uma súbita opulência que é também dos pobres.


II 

O pequenito acorda

e descalço atravessa o corredor da casa

sem entender o despropósito da hora.

Choroso, requer o colo da mãe,

mas a hora no momento é do outro filho,

aquele que tenta rasgar a escuridão

rumo à luz primeira da sua vida, 

rumo à luz dos olhos da mãe

rasos de comoção  e de alegria.


Longe da catástrofe do mundo,

a persistência do espanto.


Lídia Borges