sábado, 4 de julho de 2026

Em flor (À conversa com Maria Ondina Braga)

 

"Os dias de verão são sem nenhuma piedade. O sol abre cedo, penetra as persianas meio cerradas, aquece as paredes, aflige homens e bichos, queima as plantas melindrosas. Na rua, nas lojas, no metro, as pessoas transpiram, resmungam, olham-se com desgosto. Há uma infelicidade própria dos dias de verão na cidade."



Maria Ondina Braga, in A personagem.

Obras completas de Maria Ondina Braga - Rom_,ances,

Imprensa Nacional – Casa da Moeda (2026:p.109)

 


Há uma infelicidade própria

dos dias de verão na cidade

É uma letargia que alastra, morrente

por dentro de homens e bichos.

Abandonadas à fúria do astro-rei

estiolam as casas.

No seu interior a obscuridade,

manta de frescura que aconchega.

É neste remanso onde

senhora de mim me vejo,

sem marcas nem desassombros,

que voltas a acontecer-me.

 

E de novo, com tintas de bem-querer, te pinto

sem pressas, preceitos ou enganos.

Enchem-se as entrelinhas deste tempo parado

de palavras cálidas, lembranças futuras de hoje

que reescrevo tranquilamente,

à margem de ventos e ecos outonais.

 

O teu sorriso (ainda saberás sorrir?)

transforma em pó a distância 

incapaz de nos fazer mal.

É verão, não vês?

Há muito tempo agora para regar

as solidões em flor nos vasos das varandas,

à noitinha de preferência

quando a canícula esmorecer,

sangrando no horizonte.


Lídia Borges 


(imagem daqui )