domingo, 13 de setembro de 2026

À distância de um braço

 


Tens contigo matéria que serve ao poema.

Está à distância de um braço:

astros e detritos. De que lado acordaste?

 

Nada disso sacrificas ao formato do poema.

Nem sequer o doce de figo 

a fervilhar lentamente na cozinha,

irradiando aromas frutados pela casa,

 

Ecos ocos, ócio obsceno e a morte algures

a lavrar, a lavrar...

Não te chama, a Poesia!

O poema exige mais coração, mais veia, mais alma e pulso.

É de azedia e socos no estômago, a escuma dos dias.

 e o poema azeda.

 

A compota de figo está no ponto.

Último ponto: deixar arrefecer e enfrascar.


Um frasco de doce pode ser bastante

para encher o poema

que necessita escapar à conservação em vácuo.



Lídia Borges (reescrito/revivido)



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