quinta-feira, 29 de julho de 2010

O menino que escrevia versos


De que vale ter voz se só quando não falo é que me entendem?
De que vale acordar se o que vivo é menos do que o que sonhei?

(Versos do menino que fazia versos)

- Ele escreve versos!
Apontou o filho como quem entrega um criminoso na esquadra. (…)
- Há antecedentes na família?
- Desculpe, doutor?
(…) Dona Serafina respondeu que não.
(…)
- Dói-te alguma coisa?
- Dói-me a vida, doutor.
O doutor suspendeu a escrita (...)
- E o que fazes quando te assaltam essas dores?
- O que melhor sei fazer, excelência.
- E o que é?
- É sonhar.


Na semana seguinte foram os últimos a ser atendidos. (…)
O médico, sisudo taciturneou: o miúdo não teria por acaso mais versos? O menino não entendeu.
- Não continuas a escrever?
- Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho este pedaço de vida – disse apontando um novo caderninho – quase a meio.
O médico chamou a mãe, à parte. Que aquilo era mais grave do que se poderia pensar. O menino carecia de internamento urgente.
- Não temos dinheiro – fungou a mãe entre soluços.
- Não importa – respondeu o doutor.

Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico.
(…) ele se senta num recanto do quarto onde o menino está internado. Quem passa no corredor pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que, verso a verso, vai lendo o seu próprio coração. E o médico abreviando silêncios:
- Não pare, meu filho, continue lendo…

Mia Couto, (2004), in O Fio das Missangas, Editorial Caminho, SA

25 comentários:

Mª João C.Martins disse...

Os versos dos meninos, vida a saltitar mesmo em silêncio, são pequenas nuvens de algodão doce, pintadas de constelações e sois e chuva, às vezes.
Mas são poucos aqueles que olham para o céu e leêm os versos dos meninos...

Mia Couto, como é grande e amplo o seu olhar!

Obrigada!
Um beijinho enorme

Luiza Maciel Nogueira disse...

boa escolha!
Mia Couto tem uma escrita suave, sonhadora.

Beijos.

Mona Lisa disse...

Olá

Obrigada pela partilha.
Gosto imenso da escrita leve e suave de Mia Couto.

Tb eu sofro dessa dor...SONHAR!
Não tenho caderninho...escrevo com os "dedos da memória".

Bjs.

Jorge disse...

Também tenho caderninho(s) [que são pedaços de vida] de um menino que, de tanto correr atrás dos sonhos, parou de sonhar. Continuo a revisitar, acordado e nos meus sonhos, os seus sonhos.
Abr
J

Juliana Matos. disse...

Sonhar é magia, é amadurecimento, correr atrás dos sonhos é alegria..amo sonhar!
Um beijo Lídia!

P. P. disse...

Simplesmente magnífico!

Mar Arável disse...

Boa memória

Sândrio cândido. disse...

sem palavras eu medito este silêncio na voz deste menino.

P L disse...

Lídia, minha querida, sua sensibilidade é única! Adoro visitar-te, porque é sempre uma surpresa deliciosa ler o que vc publica aqui.

Achei isso magnífico: "De que vale acordar se o que vivo é menos do que o que sonhei?"

Beijos,
Patrícia Lara

Branca disse...

Belíssimo este texto e tantas e variadas interpretações pode ter, desde a sensibilidade do menino, até à sensibiliddae do poeta, que é um eterno menino espantado..., até mesmo uma longa reflexão sobre a normalização da sociedade e a reacção perante a diferença.
Tanto que tem este texto em tão poucas palavras!
Obrigada pela partilha.
Beijos
Branca

A Palavra Mágica disse...

Lindo Lígia!

A força dos versos.

Beijos!
Alcides

Anónimo disse...

Mia Couto, uma referência para ler... Sempre!

É bom saber que ainda há meninos que sonham, mesmo que sejam em versos.

Beijo, Lidia.

Maria

Imagem e Poesia disse...

Que delícia esta leitura.
Obrigada por compartir.
Beijinhos

Ana Oliveira disse...

Quem dera "um menino" que sonhasse por mim a vida que me foge...

Um beijo

Sonia Parmigiano disse...

Lígia,

Um dos mais belos textos que já li...comovente!
O verso aliado à vida...bela postagem!

Um grande beijo e ótimo final de semana!!

Reggina Moon

Maria Rodrigues disse...

Amiga, absolutamente lindo, terno e de uma sensibilidade extraordinária.
"A poesia é o sentimento que sobra ao coração e sai pela mão." (Carmen Conde)
Bom fim de semana
bjs do tamanho do infinito
Maria

Everson Russo disse...

Lindo demais...que jamais pare de escrever versos o menino,,,que continue a moldar sua alma...beijos de otimo final de semana pra ti.

Imagem e Poesia disse...

Olá! Tudo bem?
Tem mais Fernando Pessoa e Florbela Espanca, lá no meu cantinho.
Beijinhos
Ceiça

Carmo disse...

Ólá Lídia, óptima escolha. Gosto imenso de Mia Couto.
Beijinhos
Bom fim de semana

deep disse...

Lídia, é bom revisitar este texto, assim como a música. Obrigada.

Bom domingo e, se for caso disso, boas férias. :)

Fernanda Ferreira - Ná disse...

Mia Couto tem este dom de nos deixar extasiados, deslumbrados.

Que o menino continue a escrever versos e a sonhar.

Beijinhos

Na casa do Rau

Rosemildo Sales Furtado disse...

Oi Lidia! Passando para te agradecer pela honrosa visita e pelo comentário, e dizer que gosto bastante das criações do Mia Couto, inclusive, tenho postado, além de um belo poema, uma pequena parte da sua biografia, no nosso humilde espaço. Acertaste na escolha. O menino que fazia versos é lindo e bastante profundo.

Tens um espaço muito bonito, interessante e bastante aconchegante, com certeza aqui voltarei mais vezes, pois tomei a liberdade de me tornar teu seguidor, até quando permitires, é claro.

Beijos e ótimo final de semana pra ti e para os teus.

Furtado.

Maria Luisa Adães disse...

Mia Couto

É terna, sensível, nesse menino que escrevia versos.
Só ela o entendeu e escreveu, seu triste destino.

Muito bem escohido e bastante triste, mas real.

Mª. Luísa

angela disse...

Maravilhoso!
Falar mais seria redundância.
beijos

Sônia Brandão disse...

Bela escolha.´
Impossível não gostar de Mia Couto.

bjs