domingo, 1 de agosto de 2010

Praia


No alvorecer branco desta varanda cheia de mar
busco a água e o sal em mapas no corpo da infância
quando os risos eram conchas abertas
a habitarem os meus castelos de areia
que desafiavam a grandeza das ondas.

Mais tarde…
Eram os barcos que enxergava da praia,
sempre distantes e inacessíveis
como sonhos que partiam sem mim.
Sobre a areia era o sol derramado
e a língua morna do vento
a lamber os nossos corpos molhados.
Era a pedra cinzelada pelo vai e vem do tempo
Sem nada saber do tempo,
tão lisa e inócua como eu.

E depois, depois...
O mergulho na gruta labiríntica, sem fio de Ariadne,
arquitectada por uma inquietação permanente,
um medo indecifrável , sem nome
a apontar-me o fracasso, o fim antes de tudo
O fim desumano muito antes do fim.

Hoje é ainda a complacência do mar
dispersa nos vagares desta maré vaza
a falar-me da raiz nociva de outras marés
e de velhos sonhos naufragados,
barcos engolidos por temporais com fome.

Sorrio ao ver tantos barcos ainda no cais.
Alguns realizaram grandes viagens
debaixo de ameaças e assombrações
mantendo-se sempre à superfície
na liquidez das águas,
no balancear de ventos benévolos...

Como estes que, agora, me prometem a paz
no perfume suave do momento.

18 comentários:

José Carlos Brandão disse...

O mar é um convite à viagem.
Os barcos sempre à espera.
O horizonte é a imagem
do infinito, da quimera.

Gostei do seu poema, Lídia. O mar sempre me fascinou.

Penélope disse...

Este MAR imenso que nos faz sonhar e que os sonhos só são possíveis quando dentro dele...
Sempre belos poemas, Lídia.
Beijinhos

Jorge disse...

O Mar é a maior metáfora da nossa vida, dando-nos lições preciosas para o presente e até para quem tem saudades do futuro.
As ondas continuam e a vida também.
Tenha um mar de felicidade.
J

Anónimo disse...

Muito bom teu blog....
da uma passadinha no meu depois...
Bjus

Sonia Schmorantz disse...

Muito gostoso de ler este poema, está lindo!
beijos, otima semana

Anónimo disse...

Seus versos são embalados em ondas, sinto-me barquinho de papel à deriva ao lê-los.

Beijos.

Sândrio cândido. disse...

lidia sinto sua falta lá no aalmaearosa.
saudações.

AC disse...

O olhar apreensivo da poetisa, mas ainda com um remate de esperança.

Beijo

Fátima disse...

Tudo já foi dito, linda poesia carregada de lembranças e esperanças.

Beijos

Maria Luisa Adães disse...

Praia

É um poema lindo onde predomina um Mar benevolente que leva de manso os barcos, na dolência da maré.

Praia e Mar, é o Princípio do mundo e talvez o Fim...

Obrigada por sua presença, no meu blogs.

Maria Luísa

Anónimo disse...

Vivo para sempre
som dentro do sonho
lúcido e claro coração
sonha a sós contigo

Um beijo

Daniel Hiver disse...

Ao usufruir a paz dos momentos em que há o perfume da paz acalmando nossos interiores, muitas vamos dormir e sonhamos e sonhamos.
São velhos sonhos que sairam para o meio do mar e que naufragaram; e nossos barcos, como você disse,
foram engolidos por temporais de realidade que andavam famintos.

Anna D'Castro... disse...

Que lindo.....

"No alvorecer branco desta varanda cheia de mar
busco a água e o sal em mapas no corpo da infância
quando os risos eram conchas abertas
a habitarem os meus castelos de areia
que desafiavam a grandeza das ondas"...

Que paixão, este seu poema. Parabéns querida!

Beijos daqui, deste 'mar salgado e doce por natureza'.

Anna

Virgínia do Carmo disse...

Se há uma promessa de paz, então tudo valeu a pena...

Beijinhos

Parapeito disse...

gostei deste amar :)
Brisas mansas para ti*****

Ana Martins disse...

Boa noite Lídia,
o mar tem este poder contagiante de nos fazer divagar... Adorei, está lindo, lindo o seu poema!

Beijinhos,
Ana Martins
Ave Sem Asas

Cris Cerqueira disse...

Onde moro não há mar... há um rio tão carregado de meus mergulhos que me sinto parte... é como se sempre eu estivesse ali, dentro de suas águas ou nas margens olhando-o seguir o curso... é uma sensação de vida querida.

Uma bela semana a ti...

Akhen disse...

Lidia

Li e parti com os sonhos que os barcos levavam.
Por vê-los passar ao longe, quantas terras distantes visitamos? Por ver uma pequena onda desfazer-se na areia, quantas vezes vamos ao principio do mar que a traz?
Li e fiquei quieto a imaginar o universo.
Um beijo.

Paz e Luz no seu caminho