
Arrastava os pés nuns sapatos andrajosos
E parecia ter perdido os olhos pelo chão
Levava na cabeça um chapelinho ridículo
Donde se derramava uma cabeleira grisalha
em desalinho
Não levava direcção, hesitante e confuso,
Rodava a cabeça, rosa-dos-ventos, desnorteada
E resmungava palavras imperceptíveis
Num matraquear constante
A imprimir movimento às barbas brancas
cerradas
Quem o olhasse de longe à luz do sol brando
Daquela tarde de Inverno diria ver um profeta
Vindo de outras eras senhor de abismos e trevas
Mas agora que o olho bem de perto
Um frio agudo me invade
Aquela figura estranha que tanto me confundira
Era afinal a Pobreza que da máscara se despira
Lídia Borges
30 comentários:
Talvez a pior das POBREZAS - a da ALMA.
Confesso que estremeci diante de tanta profundidade, Lídia.
Vi-me diante de umas das suas melhores composições poéticas.
Abraços
Querida Lídia,deixou-me com um "nó" na garganta...
Beijinhos
Olá Lídia
Um poema FORTE...MARCANTE!
Tocou-me profundamente.
Os meus sinceros parabéns!
Bjs.
Um interessante retrato da pobreza.
bjs
Nossa, Lídia, muito bom! Vc é ótima em arrematar metáforas.
Beijo grande!
Bem-aventurados os pobres, disse o Senhor. Veem longe, sofrem fundo, estão no deserto escuro - à espera da luz da poesia. Toda poesia é luz. Toda falta de poesia é pobreza, às vezes transformada em paisagem.
Beijo.
A questão, Lídia, é que, tantas e tantas vezes, cegos de nós, confundimos a miséria, a pobreza, com a paisagem... e seguimos em frente.
Gratidão por tão belo e profundo poema.
Beijo, boa semana
Mel
Retrato poético e ao mesmo tempo cruel, afinal a Pobreza é Cruel sobretudo com os velhos... :-))
Muito sentido.
Quantos dias nos cruzamos por aí despidos de tudo. Vamos vendo estas mascaras forçadas no tempo a conjugar-se na sua nudez de bens fisicos e espirituais.........
Lidia
Uma imagem muito apropriada ao poema. O poema deixou-me com um nó na garganta que me sufoca, mexeu demais comigo, é muito profundo, eu sei dar o valor, não dessa forma, mas sei, porque já passei momentos da minha vida em que queria pão e não o tinha.
Beijinho
Olá Lídia
Uma forma diferente de mostrar a pobreza!
Bjs dos Alpes
Então, se o nosso Zé Gomes falasse, diria assim:
Pobres, gritai comigo:
Abaixo o D. Quixote
Com cabeça de nuvens
E espada de papelão!
- E viva o chicote
no silêncio da nossa mão!
Pobres, gritai comigo:
Abaixo o D. Quixote
Que só nos emperra
De neblina!
- E viva o Archote
que incendeia a terra,
mas ilumina.
Pobres, gritai comigo:
Abaixo o cavaleiro
Da lança de soluços
E bola de sabão
No elmo de barbeiro!
- E vivam os nossos Pulsos
que, num repelão,
hão-de rasgar o nevoeiro!
José Gomes Ferreira
Beijinho
João
Lídia,
É preciso que alguém passe e ainda olhe. Obrigado por olhares. Lindo poema.
Beijo
Triste a pobreza, a material e a de espírito. Abraço. Passe no meu cantinho se tiver um tempo.
Obrigado pela visita lá no meu espaço. Fiquei contente com o seu comentário. Volte sempre. Abraço.
Veste-te tu poeta
de hábil e cristã consternação
treina o dar de essmola e a caridade
e verás desaparecer célere
esse frio agudo que te invade
Gostei muito da profundidade da tua poesia, esse tema impressiona-me bastante e há pouco tempo também fiz uma poesia sobre essa temática, mas eu sou uma amadora!
Beijos,
Manuela
curiosa sensação:
a imagem mental que fui constituindo à medida que te lia não tinha nome. por momentos imaginei o vulto a derrota, primeiro, a decepção, depois, a morte, por fim. enganei-me: era a pobreza. e como ela cruza os três estereótipos onde depus o traço imaginário.
beijinho!
A pobreza põe uma surdina em todas as actividades humanas, sem exceptuar as do espírito ...
Beijo.
Esta é a pobreza que vemos, se assim estivermos atentos para o que nos rodeia. Esta é aquela sobrevive no limite, abandonada e cansada e por isso mesmo, desnudada, a gelar a alma de quem com ela se cruza.
E a outra Lídia?! A que ainda anda de semblante tapado, para preservar o derradeiro fio de dignidade?!
É urgente este olhar diferente e que nunca esse frio agudo detenha a mão que temos para dar.
Um beijinho e obrigada por mais este momento especial de boa poesia.
mas como escreves, heim!
Urra!
Urra!
Bravo!
Desde a primeira imagem
leva-nos pé ante pé
...
Beijo carinhoso.
Lídia,
Há muito escrevi um texto com esse mesmo tema. Ontem eu estava relendo, qualquer dia eu posto no Abismo Noturno.
Beijos!
Alcides
"Aquela figura estranha que tanto me confundira
Era afinal a Pobreza que da máscara se despira"
- É triste a riqueza dele!...
Quer ofertá-la e não consegue
Se algo diz, duvidam de sua palavra,
como se a vida lhe fosse negada.
Mas vive, enquanto viver a ilusão!
Um beijo!
Porém Tu, Senhor, És um escudo pra mim, a minha glória, e o que exalta a minha cabeça.
Com a minha voz clamei ao Senhor, e ouviu-me desde o seu santo monte.
Eu me deitei e dormi; acordei, porque o Senhor me sustentou.
SL 3:3-4-5
DEIXO COM ABRAÇO DE PAZ E ALEGRIA DO PAI EM TEU CORAÇÃO.
A poesia não se pode alhear de certas realidades circundantes. E como há coisas que doem, Lídia!
Beijo :)
...um friozinho acaba de me percorrer o corpo, e a alma....
Muito belo o poema, apesar da triste realidade.
Parabéns Lídia pela sua excelente poesia. Sempre!
Um beijo,
Margusta
"...e parecia ter perdido os olhos no chão."
muito bom, o absurdo de haver tanta poética
no realismo da pobreza.
abraços.
Um poema tão sensível e emotivo.
A pobreza, cada vez mais presente, cada vez mais verdadeira.
Beijinhos
adorei o blog e o poema (:
beijinho*
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