quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Viagem

(...)
Cansado, recostara-se no momento como se todo o tempo morresse nele.
Uma letargia apoderava-se progressivamente de cada músculo do seu corpo e o sangue aconchegava-se, lento, nas veias.
Tinha a sensação de vaguear nas margens da não existência, como se tivesse ingerido a morte num trago sem permitir que ela lhe tocasse com as suas mãos gélidas e ossudas.
Evitou o vácuo do abismo absurdo sob os seus pés mesmo no derradeiro instante. Estremeceu…
Era domingo. Para lá do vidro, a luz recortava sombras dançantes no pátio. O gato dormia enrolado sobre si ao sol...
Num sopro, o vento varreu as penas do pesadelo que haviam ficado a pairar soltas, entre a dor e a lágrima que a realidade declinava.

Lídia Borges

23 comentários:

Dilmar Gomes disse...

Olá amiga Lídia. Muito bom o teu texto.
Um grande abraço.

Ricardo e Regina Calmon disse...

EM DIA FUERTE, TE LER,ALMA MINHA REFRESCOU E ELEVOU, ANGÉLICOS EM ESQUADRILHA,BRAÇADAS DE GIRASSOIS TE LEVAM,PARA ORNAMENTAR CASA TUA,E OS QUEM MAIS AMAS!

BZU MÃOS SUA,SENHORA QUERIDA E CARÍSSIMA

VIVA LA VIDA

Unknown disse...

Todos os seus trabalhos são belos e não o digo por dizer. Gosto de os ler. Sinto-os tão familiares e vivos que me parece fazer parte dos mesmos.

Fê blue bird disse...

A última viagem, num sopro de abandono.
Uma conjugação perfeita de palavras e emoções. Adorei!

beijinhos

Flor de Jasmim disse...

Lidia
Lindo cada vez que te leio sinto uma certa calma. "entre a dor e a lágrima que a realidade declinava" frase, que mexe demais comigo. Obrigado Lidia.
Beijinho

Sonhadora (Rosa Maria) disse...

Minha querida

Um texto para reflectir...sonho ou realidade...de todos nós um dia.

Beijinhos
Sonhadora

Rogério G.V. Pereira disse...

RÉPLICA

Excitado, empertigara-se no momento como se todo o tempo dependesse dele.
Uma estranha energia apoderava-se progressivamente de cada músculo do seu corpo e o sangue fervilhava-lhe, ágil, nas veias.
Tinha a sensação de velejar nas vagas revoltas da existência, como se tivesse ingerido a vida num trago sem permitir que ela lhe tocasse com as suas mãos quentes e vigorosas.
Fintou o vácuo de todos os abismos que lhe colocaram sob os seus pés mesmo no derradeiro instante. Estremeceu de júbilo…
Era domingo. Para lá do vidro, a luz recortava novas cores reflectidas no pátio. O gato acordou desenrolando de si um sol que em tempos o adormecera
Num sopro, o vento varreu as últimas penas dos pesadelos que ainda haviam sobrado a pairar soltas e, entre o grito de vitória e o sorriso de vencedor, renasceu a realidade ansiada...
sem aviso

alma de pássaro disse...

Obrigado Lídia por escrever o que tantos de nós sentimos.
Beijinhos

poesia del cielo disse...

Lidia hola amiga...

lindo texto con seu toque personall muito proprio de vc.. lindo

saludos
otima semana
abracos

MariaIvone disse...

Por vezes sentimo-nos assim à beira de a tudo renunciar. É o caminho mais fácil!
Sorte que o vento, no seu constante rodopiar, nos varre as penas do pesadelo transportando-nos à realidade.


Beijos

E.A. disse...

O desalento frio que, a espaços, nos cinge a alma.
É um gosto lê-la.

João de Sousa Teixeira disse...

Entre a dor e a lágrima, sendo filhas da mesma angústia, do mesmo desejo de evasão, não creio que esta realidade as decline.
Deixemos que o sonho permita ao sopro serenar as penas. Apenas isso. Um dia destes, se tudo correr bem, é primavera.

Beijinho
João

Unknown disse...

neste trajeto se unem céu e chão,

beijo

Jorge Manuel Brasil Mesquita disse...

As viagens interiores são encontros e desencontros que se cruzam na floresta dos sonhos que se alimentam da vida, acordados ou a dormir. No fundo são a percepção do que desejamos e do que lançamos às cavernas do tempo.
Jorge Manuel Brasil Mesquita
Lisboa, 04/02/2011

Mar Arável disse...

É preciso acreditar

no sopro do vento

Para reler

Jorge Pimenta disse...

a melancolia tem cor, tem forma, tem dizer? definitivamente, sim. mesmo que em tons de domingo.
beijinho!

Unknown disse...

Olá Lídia!
Que letras mais lindas, profundas e reflexivas... Palavras espiritualizada com essência que se faz crer...

Lindo!

Bjs

Livinha

Celso Mendes disse...

Um canto triste e extremamente belo. De um lirismo comovente. Viagens, fazê-las é inevitável, atalho predestinado do existir.

Abraços!

Anónimo disse...

Lídia!
A rainha da nossa perplexidade, que torna o presente tão importante , o amor tão urgente, a bondade tão necessária, a ética tão essencial, a arte tão fundamental- ela, a Senhora Morte, devia, por inevitável,nos tornar muito melhores do que somos.

Um poema com a precisão de um bisturi, Maravilhoso!

Um beijo!

Mª João C.Martins disse...

Lídia

No declinar da lágrima, há um tempo que morre de cansaço e outro que nos ampara.
Entre os dois, salva-nos a esperança de cada viagem. Porque o sol volta sempre a nascer, depois de, no horizonte, parecer ter morrido.

Um enorme abraço e sempre a minha admiração pela forma como escreves!!

Domingos Barroso disse...

A intimidade do silêncio
é algo fabuloso
...

carinhoso abraço.

Maria P. disse...

Já tinha saudades de vir aqui:)
São sempre um prazer estas leituras.

Beijinho*

Carmo disse...

Olá Lídia
Um belo texto para reflectir. "O sopro do vento", que pode trazer mudanças (boas).

Um beijo

Boa semana