Pintura: Capel
Fazia-se urgente um abrigo
A salvo dos queixumes
Que choviam de um
céu de cinza
Havia tempo demais.
No antigo aconchego da casa,
Da velha casa com escadas de pedra
E vasos de sardinheiras
Subindo, degrau a degrau, até ao patamar
Procurava-me,
Procurava-nos, antes da dispersão,
Nos objectos parados sobre os móveis
Na sudez imprópria das paredes
Outrora despertas.
Bem a sabia morta, à casa.
Porque as coisas morrem.
[Só as coisas morrem
Nunca as pessoas.]
A casa morrera quando a vida
Que lhe dera vida, aos poucos,
A abandonara.
Era agora ela, impiedosa
Que me abandonava.
Por causa disso,
Embalo no colo uma criança triste
que já não tem onde dormir.

27 comentários:
Lídia,
Enquanto lia imediatamente me lembrei da casa em que morei antes de me casar. Lembrei-me dos degraus, das paredes e das vidas que habitavam lá.
Este é o poder das palavras!
Beijos!
Alcides
Assim é, as casas ficam abandonadas, suspensas no tempo...com tantas histórias silenciadas!
Bjs,
Manú
Percorremos o mundo inteiro em busca daquilo que precisamos e voltamos a casa para encontrá-lo.
Beijo.
Pois é!
As casas morrem quando esquecidas, desabitadas...
É tão triste ver as cidades, vilas e aldeias habitadas por fantasmas de pedra condenados a ficar ali expostos aos olhos de quem não os amou ou esqueceu!:-((
Abraço
Mas as lembranças sempre ficam...
Um beijo, querida.
Boa semana.
Lídia
Lindo teu poema!!!
Revi-me um pouco nele, pois a casa onde nasci e cresci onde fui feliz de certo modo na companhia do meu pai e irmão, pois fomos abandonados pela minha mãe. Senti uma enorme tristeza quando olhei aquela casa pela última vez, abandonada, foi vendida, mas lá está. Como tantas outras que se vêm por este País, vejo muitas por exemplo para o Alentejo no meio do nada, ou para o Norte, infelizmente é assim faz parte, os mais velhos partiram e os mais novos procuraram melhor vida fora do nosso País.
Beijinho
e por falar de casas e outros abrigos, lídia:
"garimpagem em aluvião de barro e enxofre
há casas que se erguem
acima do hálito morno das manhãs.
as paredes brancas
rasgam olhares sobre retratos acesos – dizem,
o soalho sépia
inaugura crisântemos em viço de raiz soberana – segredam.
há casas que se erguem
na precária saliva dos amanhãs.
por entre a cal do corpo e as árvores dos pés
o mar exulta em rebentação.
Não o dizem? Não segredam?
que importa?
eu sei. eu vivo lá."
a tua escrita cola-se-me à pele em arrepio gentil!
beijinho!
As casas e a vida vai mudando sem que a gente se aperceba e tem momentos que aquilo que esteve no nosso começo nos faz falta e ficamos sem aconchego.
Ricos e emotivos versos.
bjs
"[Só as coisas morrem
Nunca as pessoas.]"
só isso já é matéria para muito comentário. fiquei a pensar na profundidade desses versos até encontrar o lirismo imenso da última estrofe.
Lindíssimo poema, Lidia! Busquei um bem mais simples meu para conversar com ele:
O VELHO CASARÃO
todos os sentidos
aquietam-se neste canto
enquanto sombras se escondem
do silêncio
o passado impregnado nas paredes me espia
por um breve instante
transpassa-me
o úmido aroma
de uma vida
que já me pertenceu
(Celso Mendes)
minha cara, encheu meus olhos d'água
...
o poeta Drummond disse que triste são coisas quando consideradas sem ênfase, há mortes e mortes
beijo
Li
e a emoção de ler
levou-me a desejar coisificar-me
pois só sendo coisa,
posso morrer
como uma casa desejada...
Não queria, quem quer?
Quem pode resistir?
Quem pode ver embalar no colo uma criança triste
que já não tem onde dormir?
Por isso voltei
ao que sempre me viram ser
Uma casa...
Carinhosamente venho desejar
uma linda semana.
e muitos sonhos realizados.
beijos e beijos,Evanir.
As coisas aqui em volta quase não vibram, me abandono...
Nossa, tocante! Muito forte, Lídia, adorei!
Beijo.
A memória da casa é a memória dos que nela habitaram, que não morrem enquanto ela permanece.
bj.
Lídia,
gostei da sua casa. Feita de memória, como nós. Feita poema. A casa da poesia, com um tanto de memória e um tanto de magia.
Abraços.
as casas da lembrança
a lembrança das casas
alojadas nas salas da memória
Beijinho
joão
Muito bonito o teu poema, amiga Lídia. Tu és uma escritora de fato.
Um abraço fraterno. Tenha uma linda semana.
Não há nada mais morto do que uma casa abandonada, principalmente se antes era a moradia de uma família grande e barulhentamente feliz. Senti isso ao voltar para a casa onde fui criada um pouco antes dela ser demolida. Seu poema remexeu minhas lembranças e comoveu-me.
Beijokas.
Oi Lídia
A lembrança que permanece . A casa onde nascemos e passamos a infância, ve-la assim desabitada e morta , morremos também um pouco.
Lindo poema ,intenso .
Admirável sua capacidade de nos sensibliizar.
com abraços meus
Um belo poema, Lídia, contando uma verdade que poucos percebem - só mesmo os poetas.
Beijos.
Uma revisita, deduzo, adiada tempo de mais, deixando às intempéries do tempo retratos de memórias reconfortantes...
Tem razão, Lídia, são as pessoas que dão vida às coisas.
Beijo :)
Adorei o espaço...Muito bom gosto...Abraços...Vou ficando.
Que lindo poema, Lídia!
Fez-me lembrar quando voltei a casa dos meus avós maternos, algum tempo depois de já não estarem cá nesta vida...foi muito duro...
Mas concordo consigo, quando diz que só as coisas morrem, nunca as pessoas.
Um beijinho,
Charlotte
Lídia, a casa é o somatório das vidas que a habitam. Fora delas ou delas ausentes,
ficamos, a
"Embal[ar] no colo uma criança triste
que já não tem onde dormir."
A delícia da sua poesia, Lídia, está nestas imagens inusitadas.
Gratíssima, Lídia.
Um beijo
Mel
Fico sempre emocionada quando leio as suas palavras, entram profundamente no nosso sentir, sem explicação...bom demais...
Um abraço c/ carinho
oa.s
E tantas vezes, querida Lídia, no meio de todas as ruínas que choram o abandono de todas as vidas, embalamos essa criança, sentados no único beiral que nos suporta. A tristeza não voa, mas a memória é como um agasalho quente quando trememos de frio.
Lindo!!
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