terça-feira, 26 de julho de 2011

Coisas

                                                                                                 Pintura: Annenkov
As coisas “imprescindíveis”
que uma mala de mulher
pode guardar
em desarrumação!...
Um não mais acabar
de compartimentos,
objectos, sentimentos,
confusão...

Uma fotografia
junto do lenço da mão,
documentos à esquerda
para identificação.
À direita
uma bolsa de vaidades
deixa fugir o baton
que vai atrás do espelho
Para retocar o tom
vermelho.

Um livro de ocasião
posto à frente sempre à mão.
Os óculos, o porta-moedas,
um frasco de irritação,
umas lágrimas já usadas
um não-sei-quê, um cartão.

Um bloco de notas inúteis.
De um poema, um fragmento
aqui deixado pelo vento.
Uma voz sempre apressada
ao telemóvel pregada.
Recibos, anotações,
uma agenda, emoções...

E a chave de casa
que ainda há pouco andava
por aqui aos tropeções?
Tenho a certeza de que a vi.
Voou, desapareceu.
Querem ver que a perdi?

28 comentários:

marlene edir severino disse...

Lídia,

Tantas coisas na organizada desarrumação da rotina, suavemente, de forma tão bela arrumadas no teu poema.

Inclusa senti-me com minhas desorganizadas coisas daqui.

Afetuoso abraço!

Unknown disse...

eis um mundo na bolsa de uma mulher,


beijo

Anónimo disse...

Delícia de poema! Os versos correm, percorrem a memória quando nossas vistas se perdem à procura de nossas miudezas nas malas, nas bolsas.

Anónimo disse...

Um poema delicioso.

Comparo a minha bolsa a um buraco negro.Não acho nada dentro dela quando preciso!!!Uma calamidade.

Beijo

Maria Campos disse...

Oh Lídia, como é verdade ...mas nós mulheres somos mesmo assim. Carregamos os afectos conosco !

Beijo de cumplicidade...

João de Sousa Teixeira disse...

Era, assim, um poema de verão. Era - disse.
Mas esta mulher traz na mala "de um poema, um fragmento" ainda que ali "deixado pelo vento".
Por isso vou mudar a estação: é um poema de... Primavera.

Beijinho
João

Branca disse...

Ai, Lídia, não resisti a rir-me e a ver-me ao espelho...

O poema é delicioso, genial, porque além de estar muito bem construído e com "imagens" lindíssimas, algumas metáforas muito interessantes, é todo ele composto de um bom e muito inteligente humor.

Parabéns, os meus amigos poetas têm-me encantado por estes dias.

Beijinhos
Branca

tecas disse...

Querida Lídia, uma soberbo poema que retrata bem a nossa "organização":)
Está perfeito.
»E a chave de casa
Que ainda há pouco andava
Por aqui aos tropeções?
Tenho a certeza de que a vi
Voou, desapareceu.
Querem ver que a perdi? »
Não sei porquê identifiquei-me no poema! Porque terá sido?
Excelente. Uma vénia.
Bjito e uma flor.

Manuela Freitas disse...

Excelente poema...de facto a carteira de uma mulher é sempre um caos...para os homens um mistério! rsss
Beijo,
Manú

lis disse...

Sem elas nao somos nada rs
está tudo ali e a musica diz bem
"eu perco as chaves de casa eu perco o freio ...a mesma coisa se dá com a bolsa feminina - um deslumbre , cabe tudo!
ótimo poema , imagem e som Lídia
um post bem cuidado, do seu jeito.
obrigada .

Paulo Francisco disse...

Que organização! Por isso não mexo em bolsa de mulher rs rs rs é tudo tão particular.
Adorei.
A música também

Rosa dos Ventos disse...

As vezes que já constatei isto...mas de forma absolutamente prosaica!:-((
Lindo o que escreveste sobre o caos das nossas malas de mão!

Abraço

Dilmar Gomes disse...

Lindo o teu poema, amiga Lídia. Gosto muito do jeito de trabalhar a palavra.
Um grande abraço. Tenha uma boa noite.

Lilá(s) disse...

Um mundo na nossa bolsa, o poema é delicioso!
Bjs

Mar Arável disse...

Excelente viagem

com palavras simples

mas que lá no fundo da mala pensam
e interrogam

rosa-branca disse...

Ai amiga, vesti esse poema inteirinho e adorei. As chaves como sempre, estão num canto da mala e passamos montes de vezes as mãos por cima mas não as vimos. Ou então corremos a mala toda e ela está na bolsa de fora. Adorei. Beijos com carinho

AC disse...

Maravilhoso, Lídia, não consegui evitar o sorriso... :)

Beijo

Mª João C.Martins disse...

Todas as mulheres têm malas assim. Malas cheias de "coisas" que lhes são, de facto, tão "imprescíndiveis", tal e qual a alma que trazem com elas.
E assim se escrevem poemas com os fragmentos deixados pelo vento depois de crescerem, sublimes, na mão que segurou o lenço, o livro, o bloco, o documento ou a lágrima quebrada no espelho...

Afinal, Lídia, também " há poesia bastante" na mala de uma mulher!... :)

Um beijinho

piedadevieira disse...

Nossa, que linda imagem para ilustrar um belo e sensível poema! Coisas de mulher sonhadora.
Beijos

Artes e escritas disse...

Uma bolsa de mulher é mistério. Um abraço, Yayá.

Mateus Medina disse...

MUITO Bom lol

Realmente, bolsa de mulher é um mundo inteiro... ou melhor, como diz "o outro", é "um mundo com outro por dentro"

beijos

Evanir disse...

Muitas vezes não temos muito a oferecer,
ou repartir,mas enquanto existir palavras
que tragam de volta a esperança perdida nas longas
dificuldades da vida,
elas valerão mais do que do qualquer dinheiro ou bem material,
porque renovam a vontade de lutar
até encontrar soluções para nossos problemas.
Algumas palavras, nos momentos certos trazem de volta,
a vontade de viver e tem o poder de transformar
quem está quase desistindo.
Um beijo no coração para sempre sua amiga,Evanir.
Você é muito especial para mim..

Filoxera disse...

Excelente!
Beijinhos.

Jorge Pimenta disse...

há mundos e infinitos que cabem nos lugares mais insuspeitos. e como alguns deles estão tão próximos de nós...
um beijo, querida lídia! magnífico o teu texto, irresistível a tua poesia!

Rogério G.V. Pereira disse...

Vinha no Inter-Cidades, do Porto para Lisboa, sentado e meio ensonado ia pensando no que havia para pensar, depois de uma semana intensa e que até me tinha corrido bem. Ia eu nessa há já duas horas, quando uma mão pousou ao de leve no meu ombro com um gesto conhecido. Meti a mão ao bolso, um deles (não me lembro qual) procurando o bilhete. Não estava nesse. Procurei no outro, também não. Voltei ao primeiro e tirei de lá o mundo inteiro para me certificar se o bilhete não estaria mesmo nesse lugar. Nada. Repeti, no outro, o que no primeiro tinha feito, sem efeito. Lembrei-me então do casaco, pendurado, mesmo ali ao meu lado. Tirei o maço de tabaco, o isqueiro, as chaves do bolso de fora, o dianteiro. Procurei onde guardava o dinheiro. O revisor paciente, mas desconfiado, disse-me:"Continue a procurar, passo daqui a bocado". E eu continuei a procurar o bilhete que comprei. Procurei, procurei. Até que se me fez um clique. "Já sei!" disse com voz de Arquimedes, com toda a gente a olhar a cena, quase com pena. Peguei no maço de tabaco e lá estava o bilhete. No maço metido, entre a parte de cartão e a de prata. Tão bem guardado, para não ser perdido. O revisor passou, e tudo se normalizou.
"Sorte a das mulheres, tudo o que querem guardar, metem no mesmo lugar"

:))

Unknown disse...

Já vão muitos anos que também me arrumei na carteira da minha mulher. Primeiro foi ela que se ofereceu:
- Dá cá isso. Meto-o aqui num canto...arruma-se tudo...
Assim ela me guardou o coração e as chaves, a direcção do carro e as viagens...
Assim ela agarrou o telemóvel lá do fundo do saco e ligou para os filhos e sem os perder de vista dizia:
- Vá lá fala aqui com ele e com ela. Nunca os percas...
A mala da mulher tem muitas coisas mais do que o simples baton ou a chave de casa.

OceanoAzul.Sonhos disse...

Todos as coisas simples, cada uma delas, têm o seu significado, todas fazem parte da vida, em algum momento. Ali, é o mundo que queremos ter à mão, sem nada faltar.

Um abraço
oa.s

mel de carvalho disse...

Lídia, imprescindível se torna em mim, a leitura destes textos.

Fica um beijo e a minha enorme admiração
Obrigada, Lídia, por cada linha
Mel