Revolvo reminiscências
enquadradas em imagens mate
na gaveta das relíquias.
Ganham corpo, crescem desmesuradamente,
transbordam, tomam tudo em redor
Entre os cansaços do entardecer
tomam tudo em redor…
Fico vazia de mim a mensurar distâncias
A desligar estrelas para moldar a noite
Porque o respirar magoa, à luz ardente das mãos
Quando ela chega – a noite - escura e dócil
escorregando pela esquadria sóbria da janela
pergunto-lhe: sabes resolver enigmas?
É necessário redimensionar sentires
Comprimi-los, reduzi-los ao seu tamanho real
Atá-los com fitas de veludo em cruz
A confluírem num laço bem apertado
para que caibam de novo na pequena gaveta
onde os tinha guardado.
Lídia Borges
27 comentários:
Que linda expressão do sentir, que comunhão tem a noite e a alma, perfeito, aonda mais embalada pela suave melodia. LINDO!!!
Abraços meus, sinceros.
Fiquei sereno
e registei,
(porque sabedor
de que
cansaços do entardecer
fazem de quase tudo esquecer),
que tuas reminiscencias guardaste
atadas com fitas de veludo em cruz
na mesma pequena gaveta
onde as minhas também eu assim as pus
Sem alarde
te digo
ter eu a chave
Linda poesia!
Gd beijo
Sentimentos, após saírem da gaveta, ficam expostos a outros saberes e modificam de tamanho. Um abraço, Yayá.
Maravilhosa esta poesia que nos transporta para lá destes dias atados ao quotidiano onde a dor se cola ao desejo e as asas se quebram no brilho das estrelas.
Momentos bons.
Hoje preciso de dois poemas para comentar o seu. É o que faz mexer nas memórias…
O APARELHO DE RÁDIO
Era de ondas curtas e enorme, o aparelho de rádio
que a todos mantinha em absoluto silêncio à hora das notícias.
Levava o seu tempo, o aquecimento das entranhas,
mas logo após, tudo tinha o seu encanto,
incluindo os ruídos das interferências,
as imprecisões da sintonia,
os interlúdios
e até a cobertura franzida de chita estampada,
convenientemente ajustada, e aberta à frente,
de modo a que se visse o mostrador e o ponteiro
que sinalizava a estação emissora.
O volume do som era normalmente baixo.
Os que padeciam de menor audição
sempre poderiam encostar o ouvido ao aparelho.
Era um bom rádio: a música sempre magnífica,
os folhetins dramáticos até às lágrimas,
como eram os bons folhetins,
e as notícias sempre verdadeiras
ou, pelo menos, nunca postas em causa.
O velho e enorme Ambassador
continua a fazer-me companhia, soberbo,
numa prateleira exclusiva,
ainda reconhece os mega hertz que lhe dão vida.
Quanto ao tamanho, na verdade, é bastante mais modesto.
MEMÓRIA
No baú, uma velha alma dobrada em quatro,
aparentando ainda já ter tido melhores dias,
e o fóssil de um soneto inglês, numa folha A4,
além da caixa, sempre a caixa das fotografias.
A memória, como glicínias, floria exuberante
em cachos de versos de admirável aparato.
Nada mais enganador: pó, um poeta debutante,
alguns erros de ortografia e um frívolo retrato.
Pronto, está dito.
Beijinho
João
Tão bonitas estas reminiscências...é preciso guardá-las com laços de ternura...para que não fujam! Algumas, amadurecem e ficam mais nítidas, para nos ligar de uma forma mais íntima!
Beijo
Graça
Lindo, como sempre.
Normalmente quando escrevo/leio um poema, digo-o em "voz alta" dentro da minha cabeça.
Há ritmos, melodias, entonações, que só se conseguem assim.
beijos.
Bom dia,Lídia, sua presença m meu blog, me deixa super feliz, belíssimo trabalho, nos remete ao passado, aonde a janela era como porta de casa,
por ela via-se o mundo inteiro bjs....
Olá
Bela expressão esta, "Revolvo reminiscências..." abre-se o peito abraçando as lembranças, que cuidadosamente se guardam no fundo das gavetas da alma. É sempre um prazer ler a sua poesia
Muitos parabens
Grato pela sua visita. Considero-a sempre um incentivo.
As reminiscências da infância perduram mais do que outras.
Bj
J
Lídia, a escrita é o lugar onde transbordam, incontidas, as águas que, durante séculos foram resguardo das margens.Ai, nesse lugar sem espartilhos, de uma janela emocional, soltam-se. Florescem sem que possamos evitar (e ainda bem que assim é), sendo uma inevitabilidade de sentires
"A confluírem num laço bem apertado
para que caibam de novo na pequena gaveta
onde os tinha guardado."
Como não lhe/te dizer que é bela a tua poesia?
Quão bela, Lídia. Gratidão, a minha, ter um dia cruzado este chão.
Beijinho
Mel
Lídia
Revolvê-las, vê-las de novo em todos os ângulos, ocupando no peito essa dimensão desmesurada, em busca do entendimento dos enigmas.
Ás vezes, é tão difícil comprimi-las nesse laço, sem se lhes ouvir os gemidos...
E às vezes, ao ler-te, fico sem palavras.
Obrigada!
Um beijinho
Que maravilhas fazes com as palavras! lindo!
Bjs
Olá, amiga!
Gostei muito deste seu trabalho.
A poesia flui em busca do discernimento dos enigmas.
Saudações poéticas
Oi Lídia
Sabemos que tempo é um rio que corre e faz todo o percurso valer a pena, nem o erro é deperdiçado.
E as lembranças ficam ali incrustadas nas margens.
Sua poesia me toca lindamente, é sempre muitísimo especial, de uma ternura e simplicidade nunca antes provada.
Gosto imensamente.
deixo abraços
não sei resolver enigmas
sei lançá-los
e redimensionar as gavetas dessarrumadas da minha cabeça,
onde guardo sempre, sempre, os poemas que reminiscentemente enlaço
Lídia, um abraço pelo seu magoado respirar
à noite
manuela
Uma janela aberta
porque os pássaros
ainda voam
Excelente
Lídia
desarrumadas as gavetas,
peço desculpa por tanto ss :))
manuela
Precisamos enfim ver que nada tem explicação, e que o interessante na vida não são as respostas:são os enigmas.
Um beijo
Lidia
foi bom ler e pensar e gostar
Bom Domingo para ti e...muito SOL
Comprimi-los, reduzi-los ao seu tamanho real
Atá-los com fitas de veludo em cruz
A confluírem num laço bem apertado
para que caibam de novo na pequena gaveta
onde os tinha guardado. Como fazer isso? A lembrança é uma bloco de poesia. Tudo que é pasado cheira à poesia. Tudo o que é lembrança é muito saturada de nostalgia. beijos
viagem poética maravilhosa como só quem sabe escrever nos pode dar esta prazer...
rouxinol de bernardim
Olá, Lídia!
Estive por aqui me deliciando com seus escritos e parabenizo-a por transformar as palavras em tão lindas poesias.
Gostaria de convidá-la para um blog novo que acabo de lançar justamente para divulgar novos poetas pela blogosfera. Venha participar também.
abs carioca
Das tuas reminiscências vou sabendo, dos laçarotes com que as prendes, e vou navegando aqui e ali na busca do teu saber e conhecimento, que é vasto. E leio e partilho dos teus escritos, que me convidam hoje, amanhã, um outro dia a voltar, a sentar-me num lugar solarengo aqui e ali espicaçado por breve brisa, para te absorver como bem mereces. MIL PARABÉNS do 1000 Conversas.
Sim, muitas vezes até o respirar magoa à luz ardente das mãos(adorei essa imagem. Aliás o poema todo é um fado belíssimo e que me tocou profundamente.
beijo, amiga!
Emocionei-me muito. É tão verdadeira a descrição. Que amplidão alcança a nossa lembrança a partir de uma simples foto envelhecida e gasta. Mergulhada no tempo, alcança limites impensáveis. Difícil mesmo guardar de volta no mesmo espaço de onde tudo saiu. Mas com que delicadeza e sentimento vc fala sobre isso.
Cara poetiza, dê-me o prazer e a honra de uma visita sua para saborear um chocolate comigo.
Beijokas.
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