Foto: Lidia Borges
Aos poucos acende-se o dia sobre a cidade.
A luz num sono desfocado cobre a manhãsob um manto de frio e soturnidade.
O horizonte aproximou-se da praia
bebendo o mar na passada e a ronca aflita clama pelos barcos engolidos.
Tenho as férias amarrotadas
no bolso do casaco franzino que não aguenta a friagem.
Transeuntes passam alheios
subindo a custo a íngreme melancolia dos tempos.
Caminho pelo passeio (Alegre, de nome)
e depressa, o porto.
Os barcos regressam vindos do nada,
os homens têm na pele o sal e a maresia
de muitas lutas no amanho o mar.
De gorros enfiados e galochas desengonçadas
retiram dos barcos bóias, redes e caixas.
Caixas e caixas
Onde brilha a prata dos
peixes ainda ondulantes e confusos
na procura das ondas roubadas.
As minhas férias espreitam do bolso
E começo a consumir lentamente
Toda a sede que trazia do mar.
O peixe ao almoço...
uma dádiva dos céus que agradeço aos homens.
25 comentários:
O poema é sério, é muito a sério. Não obstante, dei comigo a esboçar um breve sorriso (assim como quem franze o lábio superior a um dos cantos...) ia eu no sétimo verso. Não me saberá dizer porquê? A minha avó costumava dizer-me: "só te ris do mal" :)O 22º verso parou-me o sorriso. É poesia e fica ali a "matar".
Seja como for, um beijinho de boas... de boa vida. :)
João
Como um simples almoço de um dia comum pode trazer tanta poesia à mesa e aos olhos e ao leitor?
-Dádivas! (de quem sabe enxergar que a poesia também se faz de pequenos e simples detalhes)
beijo, poetisa.
Tudo muito tocante sempre!
Bjs
Lídia
Lindo!!! Palavras muito sentidas e verdadeiras.
Beijinho
Há dias, comentando um texto meu a enquadrar um belo poema seu (que postei), a Lídia escrevia: "Queria dizer alguma coisa em sintonia com Oscar Wilde :"Toda a arte é completamente inútil" Talvez o acabe."
Repondi-lhe que não concordava e que admitia que Oscar Wilde nem sempre concordaria com tudo aquilo que ele próprio escrevia. A minha opinião?
Mas importante que a arte, só o pão.
E foi sobre o pão que hoje escreveu.
Pode alguém viver sem isto ler?
Para mim, este poema contradiz o que foi citado
Dizer o quê, Lídia?
Que me sinto emocionada perante esta beleza!
Abraço
Férias?! Continuem no bolso, amarrotadas (melhor não!) e a espreitar... o "almoço" está servido, com a qualidade e frescura de sempre!
Beijinho
Quicas
Tu, na minha cidade...! E o meu mar a encher-te os lábios de versos!
Um beijo, saudades, muitas...!
São as últimas 5 linhas, que me fazem voltar!
Um dia de férias vendo o regresso dos barcos
"Caixas de madeira
Onde brilha a prata dos
peixes ainda ondulantes e confusos"
Dizer mais, em tão pouco é ser perfeito.
Lidia,
A cada vez, tua seara de versos é mais fecunda e inspiradora!!!
Beijos,
AL
Muito bom Lídia! Gostei da forma que você "poetizou" este cotidiano...
[]sss
"Muitas lutas no amanho do mar", tantas quantas as esperas em terra, às vezes por nada. Como umas férias amarrotadas no bolso de uma algibeira. Dádivas, dizes tu, e eu aceno o meu coração, porque sei do que falas.
Um beijinho Lídia envolto na admiração que, como sabes, tenho por ti e pelo que escreves.
"Tenho as férias amarrotadas
no bolso do casaco franzino que não aguenta a friagem."
E ainda assim, Lídia, o hino à dádiva generosa dos homens e do universo; e ainda assim, o poeta...
Ó Lídia, Lídia, eu é que, se as tivesse, perdia todas as resistências ao poder balsâmico da tua poesia...
Beijo e o meu carinho. Boas férias (tb é o meu caso - ando "aqui e ali" )
Mel
Que lindo poema Lídia, junto à orla marítima da minha cidade, na primeira das praias e na foz do rio. Lindo o Passeio Alegre não é? E como não podia inspirar-te tão belo poema se foi esse passeio que inspirou os últimos anos de Eugénio de Andrade? Vis-te a Oliveira dele no jardim? Como eu gosto de passar naquela beira-mar, na sombra das palmeiras a fazer lembrar África e olhar a janela de sua casa onde nos últimos anos antes do internamento final o via encostado à vidraça com uma manta nas pernas a apanhar sol, já tão debilitado e enchiase-me a alma de ternura e saudade dos tempos em que com outra energia o via na vitalidade da sua vida profissional. Desculpa Lídia mas sempre amei este homem, a sua poesia, desde muito nova e agora tenho-te aqui a ti num poema loucamente lindo feito com o mesmo olhar, mas o teu estilo, tão teu e que gosto tanto.
Parti Lídia, mas náo parti de ti, do teu espaço e cá andarei sempre que puder.
Beijos
Branca
Aqui cabe a poesia
Aqui fica à mostra o sentido da vida
esse encontro entre o horizonte, os pescadores e o mar...
Lindo!
Parabéns!!!
Um beijo
Um vento frio e úmido congelante, este inverno está para pinguim. Um abraço, Yayá.
Muito bonito, este texto.
E o Porto, a cidade do meu coração...
Beijinhos.
Lídia
seu poema me faz lembrar das dádivas que vamos colhendo pela vida afora.E quando as perdemos fica o vazio .Perder amigos é ainda mais difícil.
Perdemos o Rolando , do blog Entremares ( não sei se voce o conheceu) , e hoje ,ontem ,nao sei até quando vou me devastar assim.Nao me habituo com perdas.
Bonito demais quando chego aqui e encontro Ssaras... a brilhar .Obrigada Lídia
um abraço
Também dos momentos simples da vida se faz poesia... é essa a dádiva de quem sabe.
Beijo, querida Lídia. Boas férias.
Lídia, sempre fascinante lê-la, nos mais pequenos pormenores, magnifico!
Beijos
oa.s
Nas luzes da cidade, encontra-se a frescura das palavras...
Lindo...Adorei....
Obrigada pela visita...
Beijos e abraços
Marta
Teu versos são sempre tocantes.
Beijo.
"Os barcos regressam vindos do nada"
Gostei desse verso. Assim é a vida.
Um beijo.
uma pintura
de
palavras
[salgadas
pelo olhar]
*beijo*
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