terça-feira, 2 de agosto de 2011

Dádivas

                                                                                                                           Foto: Lidia Borges

Aos poucos acende-se o dia sobre a cidade.
A luz num sono desfocado cobre a manhã
sob um manto de frio e soturnidade.
O horizonte aproximou-se da praia
bebendo o mar na passada
e a ronca aflita clama pelos barcos engolidos.
Tenho as férias amarrotadas
no bolso do casaco franzino que não aguenta a friagem.
Transeuntes passam alheios
subindo a custo a íngreme melancolia dos tempos.

Caminho pelo passeio (Alegre, de nome)
e depressa, o porto.
Os barcos regressam vindos do nada,
os homens têm na pele o sal e a maresia
de muitas lutas no amanho o mar.
De gorros enfiados e galochas desengonçadas
retiram dos barcos bóias, redes e caixas.

Caixas e caixas
Onde brilha a prata dos
peixes ainda ondulantes e confusos
na procura das ondas roubadas.
As minhas férias espreitam do bolso
E começo a consumir lentamente
Toda a sede que trazia do mar.

O peixe ao almoço...
uma dádiva dos céus que agradeço aos homens.

25 comentários:

João de Sousa Teixeira disse...

O poema é sério, é muito a sério. Não obstante, dei comigo a esboçar um breve sorriso (assim como quem franze o lábio superior a um dos cantos...) ia eu no sétimo verso. Não me saberá dizer porquê? A minha avó costumava dizer-me: "só te ris do mal" :)O 22º verso parou-me o sorriso. É poesia e fica ali a "matar".

Seja como for, um beijinho de boas... de boa vida. :)
João

Celso Mendes disse...

Como um simples almoço de um dia comum pode trazer tanta poesia à mesa e aos olhos e ao leitor?

-Dádivas! (de quem sabe enxergar que a poesia também se faz de pequenos e simples detalhes)

beijo, poetisa.

Lilá(s) disse...

Tudo muito tocante sempre!
Bjs

Flor de Jasmim disse...

Lídia
Lindo!!! Palavras muito sentidas e verdadeiras.
Beijinho

Rogério G.V. Pereira disse...

Há dias, comentando um texto meu a enquadrar um belo poema seu (que postei), a Lídia escrevia: "Queria dizer alguma coisa em sintonia com Oscar Wilde :"Toda a arte é completamente inútil" Talvez o acabe."

Repondi-lhe que não concordava e que admitia que Oscar Wilde nem sempre concordaria com tudo aquilo que ele próprio escrevia. A minha opinião?
Mas importante que a arte, só o pão.
E foi sobre o pão que hoje escreveu.

Pode alguém viver sem isto ler?

Para mim, este poema contradiz o que foi citado

Rosa dos Ventos disse...

Dizer o quê, Lídia?
Que me sinto emocionada perante esta beleza!

Abraço

Anónimo disse...

Férias?! Continuem no bolso, amarrotadas (melhor não!) e a espreitar... o "almoço" está servido, com a qualidade e frescura de sempre!
Beijinho
Quicas

Anna disse...

Tu, na minha cidade...! E o meu mar a encher-te os lábios de versos!

Um beijo, saudades, muitas...!

Ricardo Valente disse...

São as últimas 5 linhas, que me fazem voltar!

Unknown disse...

Um dia de férias vendo o regresso dos barcos

"Caixas de madeira
Onde brilha a prata dos
peixes ainda ondulantes e confusos"

Dizer mais, em tão pouco é ser perfeito.

A.S. disse...

Lidia,

A cada vez, tua seara de versos é mais fecunda e inspiradora!!!

Beijos,
AL

Rafael Castellar das Neves disse...

Muito bom Lídia! Gostei da forma que você "poetizou" este cotidiano...

[]sss

Mª João C.Martins disse...

"Muitas lutas no amanho do mar", tantas quantas as esperas em terra, às vezes por nada. Como umas férias amarrotadas no bolso de uma algibeira. Dádivas, dizes tu, e eu aceno o meu coração, porque sei do que falas.

Um beijinho Lídia envolto na admiração que, como sabes, tenho por ti e pelo que escreves.

Mel de Carvalho disse...

"Tenho as férias amarrotadas
no bolso do casaco franzino que não aguenta a friagem."

E ainda assim, Lídia, o hino à dádiva generosa dos homens e do universo; e ainda assim, o poeta...

Ó Lídia, Lídia, eu é que, se as tivesse, perdia todas as resistências ao poder balsâmico da tua poesia...

Beijo e o meu carinho. Boas férias (tb é o meu caso - ando "aqui e ali" )
Mel

Branca disse...

Que lindo poema Lídia, junto à orla marítima da minha cidade, na primeira das praias e na foz do rio. Lindo o Passeio Alegre não é? E como não podia inspirar-te tão belo poema se foi esse passeio que inspirou os últimos anos de Eugénio de Andrade? Vis-te a Oliveira dele no jardim? Como eu gosto de passar naquela beira-mar, na sombra das palmeiras a fazer lembrar África e olhar a janela de sua casa onde nos últimos anos antes do internamento final o via encostado à vidraça com uma manta nas pernas a apanhar sol, já tão debilitado e enchiase-me a alma de ternura e saudade dos tempos em que com outra energia o via na vitalidade da sua vida profissional. Desculpa Lídia mas sempre amei este homem, a sua poesia, desde muito nova e agora tenho-te aqui a ti num poema loucamente lindo feito com o mesmo olhar, mas o teu estilo, tão teu e que gosto tanto.

Parti Lídia, mas náo parti de ti, do teu espaço e cá andarei sempre que puder.

Beijos
Branca

Anónimo disse...

Aqui cabe a poesia
Aqui fica à mostra o sentido da vida
esse encontro entre o horizonte, os pescadores e o mar...


Lindo!
Parabéns!!!

Um beijo

Artes e escritas disse...

Um vento frio e úmido congelante, este inverno está para pinguim. Um abraço, Yayá.

Filoxera disse...

Muito bonito, este texto.
E o Porto, a cidade do meu coração...
Beijinhos.

lis disse...

Lídia
seu poema me faz lembrar das dádivas que vamos colhendo pela vida afora.E quando as perdemos fica o vazio .Perder amigos é ainda mais difícil.
Perdemos o Rolando , do blog Entremares ( não sei se voce o conheceu) , e hoje ,ontem ,nao sei até quando vou me devastar assim.Nao me habituo com perdas.
Bonito demais quando chego aqui e encontro Ssaras... a brilhar .Obrigada Lídia
um abraço

Graça disse...

Também dos momentos simples da vida se faz poesia... é essa a dádiva de quem sabe.

Beijo, querida Lídia. Boas férias.

OceanoAzul.Sonhos disse...

Lídia, sempre fascinante lê-la, nos mais pequenos pormenores, magnifico!

Beijos
oa.s

Marta Vinhais disse...

Nas luzes da cidade, encontra-se a frescura das palavras...
Lindo...Adorei....
Obrigada pela visita...
Beijos e abraços
Marta

Cris de Souza disse...

Teu versos são sempre tocantes.

Beijo.

José Carlos Brandão disse...

"Os barcos regressam vindos do nada"
Gostei desse verso. Assim é a vida.

Um beijo.

lupuscanissignatus disse...

uma pintura

de

palavras



[salgadas
pelo olhar]


*beijo*