sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Elas


 São elas, as mulheres que trazem o mar
em pequenos baldes de plástico
até às esquinas da cidade.
- Sardinha e pescada vivinha -
O pregão sobe no ar a meio tom
que o agente de autoridade
pode estar por perto.

Quando este aparece
à entrada da rua
é uma roda-viva na tarefa aflitiva de
esconder os baldes.
Qualquer recanto serve
entre os carros estacionados, à entrada das casas
sob os aventais desatados à pressa.

A notícia corre como uma vaga cúmplice
de esquina em esquina
e o mar recua sem deixar rasto.
Mas quando a autoridade se enche
de competências e valentias
e lhes sonega as parcas migalhas do dia,
o pregão dá lugar ao choro.
É um soluçar conformado
que lhes martiriza a garganta
porque é amargo o sabor da fraqueza
e injusta a justiça dos homens.

Voltam sempre na crista de uma nova maré
para vender o que sobra
do sobressalto de mais uma noite
em que os seus homem as trocaram pelo mar

Faneca vivinha -
A meia voz, a meia vida
“Não vá o diabo tecê-las”.

17 comentários:

Rosa dos Ventos disse...

É impressão minha ou este quadro está no Museu de Arte Contemporânea, no Chiado? É que estive lá ontem e vi-o, tenho quase a certeza!
As varinas sempre fonte de inspiração para quem tem o dom de as pintar ou poetizar...:-))

Abraço

Rosemildo Sales Furtado disse...

Oi Lídia! Passando para me deliciar com mais uma das tuas belas criações e dizer que adorei.

Aproveito a oportunidade para te comunicar a criação do nosso novo espaço: “Literatura & Companhia Ilimitada” http://literaturacompanhiailimitada.blogspot.com/ , (ainda em formação, mas, já com a primeira postagem) criado com o objetivo de ampliar à divulgação da História da Literatura Mundial e de tudo aquilo que venha contribuir para o crescimento cultural daqueles que o desejarem, assim como, acrescentar mais uma fonte de pesquisas.

Ficaríamos muito felizes e agradecidos de poder contar com a tua visita e, se possível, sermos agraciados com a tua opinião/sugestão, pois, a continuidade ou a solução de continuidade do mesmo dependerá do parecer daqueles que por lá passarem honrando-nos com a visita.

Beijos. ótimo final de semana pra ti e que DEUS nos abençoe.

Furtado.

Flor de Jasmim disse...

Lídia
Tocante!!! Lindo demais.
Fez-me recuar muitos anos na minha vida, quando as pexinas andavam com as canastras à cabeça a fazer o pregão pelas ruas da minha infancia.
Beijinho

Rogério G.V. Pereira disse...

Em Lisboa também era assim

A Eugénia, uma varina
chamada por Russa
tenha corpo arredondado
e vestia leve blusa
generosa de usar
vistosa de se olhar
Valentim, guarda de giro
moreno transmontano
fingia
que atrás da Russa corria
para lhe confiscar o pescado

Era assim, todos os dias
Eugénia a correr
Valentim fingindo o mesmo fazer

Um dia Eugénia, com a venda feita
deixou-se por Valentim apanhar,
fingindo-se contrafeita

Tudo acabou no altar
da Igreja da Penha de França
Dum lado
As varinas de todo o bairro
Do outro a esquadra de São João em peso
e algumas freguesas antigas
consideradas de ambos amigas

Pelo bairro, nesse dia,
nenhum pregão se ouvia
"Ò peixe liiiindo, vivinho"
E era...

(o que o seu poema inspirou...)

Graça Sampaio disse...

Muito vivo! Saltitante como elas!
Muito lindo, como de costume, claro...

Beijinhos

Maria Rodrigues disse...

Amiga Lídia um poema maravilhoso, uma homenagem encantadora às varinas, mulheres com vidas duras mas sempre com um sorriso na cara e um pregão na boca.
Bom fim de semana
Beijinhos
Maria

Teté M. Jorge disse...

Uma delicadeza de versos...

Um beijo carinhoso.

A Palavra Mágica disse...

Lindas! Palavra e imagem!

Beijos!
Alcides

Lilá(s) disse...

Encantadora esta homenagem, para que não caia no esquecimento.
Bjs

Mª João C.Martins disse...

De braços fortes e ancas roliças, chamam-nos " meu amor anda cá, ver o peixe que aqui há e que guardo só para ti!", escondidas nestas palavras mansas, dentro do avental onde guardam as parcas notas, misturam-se salgadas as tempestades das suas vidas. E são tantas as suas histórias...
Conheço algumas que guardo, singelas pedras preciosas...

A tua poesia é, tal como Elas!

Um beijinho muito grande

Branca disse...

Mais um bonito poema em que nos falas das gentes do mar e da vida destas mulheres tão sofridas. É um tema que me diz muito, porque foi sempre junto de zonas piscatórias e do seu mundo que passei a maior parte das minhas férias de menina e moça e muitas vezes ao fim da tarde me sentava junto ao portinho de abrigo onde os barcos ancoravam e onde as mulheres amainavam o peixe. Outros tempos com menos regras, mas com uma vida muito difícil e sofrida. Vidas que ainda hoje são feitas de muitas lutas, lutos e dores.

Um beijo para ti.
Branca

Jota Effe Esse disse...

Um lindo exemplo da luta pela sobrevivência. Meu beijo.

P. P. disse...

Momento histórico. Momento que me permitiu viajar a tempos por mim não vividos mas facilmente imaginados e assim "revividos".
Delicioso!

Abraço.

Maria Luisa Adães disse...

Em Setúbal, também se passava a mesma vida.
E assim Setúbal sobreviveu, no tempo em que não havia pesca.
Momentos cruéis do passado, de que ouvia falar...

Gostei de a encontrar!

Maria luísa

Evanir disse...

Lidia minha querida..
Seu poema escritos com doces palavras
forte e dominante ao meu coração.
Uma feliz tarde de Domingo beijos poeta querida,Evanir.

João de Sousa Teixeira disse...

Em (En)cantos de Castelo Branco publiquei aquilo que bem poderia ser uma marcha para a cidade. Sem varinas, que não há mar... mas com a mesma nostalgia:

PARA UMA MARCHA DA PRAÇA VELHA


Por aqui passa a gente
aos paços de antigamente:
passam cavaleiros peões
ao trabalho nas procissões
e com a gente a passar
passa o tempo sobre a praça
ai já não temos vagar
p’ra lhe achar a mesma graça

ref. s. pedro tem as chaves
da rua de santa maria
e o povo tu bem sabes
as chaves da freguesia

menino da rua nova
vai fazer a tua prova
vem p’lo arco de regresso
trocas as voltas do avesso
menino enquanto demoras
na praça em cada quelha
o relógio bate as horas
que fazem a praça velha

ref. s. pedro tem as chaves
da rua de santa maria
e o povo tu bem sabes
as chaves da freguesia

Beijinho
João

lis disse...

Oi Lídia
que lindeza de poema !e como são belas essas mulheres na simplicidade de seus aventais e do seu canto.
Como nos orgulham sempre que as encontramos por aqui ,nao na mesma especiaria mas em tantas outras...
parabéns