segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O mar, ainda!...

Fora um despertar de pálpebras pesadas que se recusavam a abrir, fugiam da luz e insistiam em ficar pregadas a um sono que prometia chegar. Esperara-o horas a fio, em vão. A noite tinha-se enchido de fantasmas que semeavam ameaças informes entre as pregas dos lençóis terreno que, na iniquidade da noite, se tornava arável e muito fértil.
Em que tormento amanhecia para mais um dia igual a tantos outros, nos últimos tempos? Um dia gélido que sentia já a queimar-lhe as mãos fortes que haviam sido firmes a segurar as redes no mar. Experimentou abri-las, mas logo delas se alongaram sombras oscilantes a envolvê-lo numa febre incómoda, sublevada que se colava ao corpo e lhe sondava o coração com garras finas de dor e aço. Queria acordar sob o signo de outro tempo, noutro espaço insondável, dentro de si. Como naufrago agarrava-se, em desespero, inventando amarras que se iam diluindo na incorporalidade da matéria que as tecia. Nem o sono, última porta entreaberta, irmão das coisas sossegadas lhe permitia entrar para acalentar os cansaços.
Num gesto de ousadia abriu os olhos. Foi quando se viu esmagado pelo excessivo peso do seu tributo à vida. Levantou-se, meio embriagado pelo branco da noite e saiu para a rua disposto a recomeçar.
Bateria a todas as portas sem descanso, falaria a todos os mestres de todos os barcos, alargaria o círculo da busca mais e mais e mais...

E se, mais uma vez, não encontrasse trabalho? Como regressar a casa, aos olhos infantis sobre si [pai!...], à mesa vazia, à noite sem fim?

[...]


Miranda - Pintura


18 comentários:

Mateus Medina disse...

É daqueles textos que têm a força de maximizar o que é esquecido por tantos... trazer a luz uma história que pode ser a de qualquer um de nós, infelizmente.

Triste... e fantástico.

Jorge Pimenta disse...

há ímpetos que se tornam irreprimíveis. os de todos os regressos, sentindo-a os lugares como não seus, por neles, mais do que não pertencer, não caber, é de uma violência que só a poesia pode amaciar. na tua voz, então, torna-se bálsamo para todos os recomeços. com uma flor na lapela.
beijinho!

Unknown disse...

Estou de volta,senti saudades.

Beijo.

João de Sousa Teixeira disse...

Outros, a sul e cobertos com o pó da terra até ao tutano, homens de outras artes mas com o mesmo fado que não é de cantigas, insistem também, teimosamente, em viver.
A sua narrativa é excelente.
Beijinho
João

Rogério G.V. Pereira disse...

Todas as portas a que bateu se abriram. Troca de sorrisos tristes e um acenar depois de ouvir, sempre, palavras iguais, que já há menos barcos, que as cotas de pescado estão num minimo insuportável, que o lucro da safra só dá para pagar o gasóleo gasto para sair a barra. Faltava uma porta a que bater. A conversa foi diferente e sem saber como, fechou contrato. No dia seguinte embarcaria, fazendo parte da tripulação de um barco marroquino. Regressou a casa. Entrou enquanto saiam duas lágrimas dos seus olhos de menino...

Maria selma disse...

Visitando este espaço,,,
Esta é avida de muitos...
beijos

Flor de Jasmim disse...

Lídia
Infelizmente esse texto poderá se aplicar à muitas familias dentro de pouco tempo. É triste mas muito bom de ler e reflectir.
Beijinho

Parapeito disse...

infelizmente uma história tão real...
Que possam as pessoas ter vontade para bater a todas as portas...e acreditarem que alguma se vai abrir.
brisas doces*

P. P. disse...

O fenómeno cíclico da história...
Assim tenho alunos, não se localizando a ação junto ao mar mas em solos rochosos que a viva força procuram tornar férteis. E escrevia eu da nossa história! Na verdade, este rico texto traduz o nosso país. Recordo a outra escola onde trabalhei 7 anos, na região centro e logo pela manhã, alguns dos meninos chegavam com cheiro ao estrume das vacas.
Por estranho que possa parecer, eram mais felizes do que os de agora. Brincavam e eram amigos. Tinham objetivos que normalmente passavam por ir para o estrangeiro. Talvez por isso, pelos seus objetivos de vida, nunca atribuí muitas negativas (3 em 90 a 120 alunos) em Ciências ou Matemática (aqui o mais frequente era de 6 no mesmo universo). Agora, cessaram os objetivos, cessaram os medos (e eis que dou por mim a fugir ao tema. Perdoem-me! Ansiedade do ano letivo que se aproxima e de um novo ciclo com novos alunos). Mas pais que exploram os filhos como escravos ou que os põe no mundo delegando todas as incumbências na escola, ... esses tb os há ;(

Abraço

Sofá Amarelo disse...

Um retrato dramaticamente verdadeiro, bem delineado nos gestos e nas angústias de uma existência difícil...

licinia quiterio disse...

Um texto doce-amargo. Como a vida dos homens. Bonito, Lídia. Um beijo.

Mª João C.Martins disse...

Por entre as malhas largas das redes, fogem os peixes que alimentariam tantas bocas. No desespero, apenas o "excessivo peso do tributo à vida" consegue fazer com que se aprumem as barcas sem mar por onde navegarem.

Maravilhosamente escrito, este texto é um afago doce em todas as mãos vazias e corações angustiados!

Um beijinho muito grande, Lídia

lupuscanissignatus disse...

alagar

a

desesperança



[no insubmisso
azul]



*um beijo,
Lídia*

Unknown disse...

belo, belo


beijo

Branca disse...

Um drama infelizmente tão presente nos dias de hoje, retratado num texto comovedoramente lindo e tão bem escrito quanto tu sabes.

Beijos

Graça Pereira disse...

Lançam as redes e vêem , por vezes, tão vazias de peixe...na inversão dos problemas, desgostos, verdadeiros dramas, esses sim, em fartura que os esmaga sem nenhuma nobreza...Um texto perfeito e real...não só nos tempos de hoje!
Beijo
Graça

Vivian disse...

...com leveza de alma
conseguistes transportar
a dura realidade para um
poemar de esperança.

sim, esperança!!!

porque os poetas tem este
dom...
levar-nos a sonhar com
um mundo melhor...SEMPRE!

bjs, alma linda!

obrigada pelos carinhos...

tecas disse...

Um texto de realidade, amiga Lídia. Dramas da vida...«Num gesto de ousadia abriu os olhos. Foi quando se viu esmagado pelo excessivo peso do seu tributo à vida. Levantou-se, meio embriagado pelo branco da noite e saiu para a rua disposto a recomeçar...» Magnificamente bem escrito.
Bjito amigo e uma flor.