sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O Outono é feito de coisas simples

                                                                                                       Donald Zolan (pinturas)

O Outono é feito de coisas simples
Uma cesta de maçãs largada no chão
Tigelas de marmelada a secar nas janelas
O cheiro doce das compotas...

Revoadas de pássaros apressados
E uma neblina mansa a empurrar-nos
para dentro de um sentimento sem nome.

Esta manhã o canto das aves
Foi trocado pelo som de uma harmónica
que lança pela rua o seu tocar afinado.
Vem à mistura com um pregão:
Tesouras, guarda-sóis, facas e navalhas.

O guarda-soleiro voltou, como por magia
Saído de uma porta do antigamente
E, de imediato, uma infância corre
Desafiando o vento no empedrado do largo.

Ao centro, uma estátua equestre
E D. Pedro V, do alto da sua montada
A vigiar as correrias das crianças
E os velhos, de olhos cansados
Procurando no jornal
Com a urgência de um sem-tempo
As notícias por acontecer
No restolho das viagens só sonhadas.

E eu, menina
A acreditar que o guarda-soleiro que passava
Era o guardador do sol
E por sua culpa, viria em breve
O frio do Inverno.

24 comentários:

Mateus Medina disse...

O poema é todo lindo, mas onde mais me identifiquei foi aqui:

"E uma nebelina mansa a empurrar-nos
para dentro de um sentimento sem nome."

O outono parece transbordar esse "sentimento sem nome", muito mais que o inverno, que define claramente sentimentos nas pessoas - diversos, é verdade.

bjos

OceanoAzul.Sonhos disse...

A magia da simplicidade...

Um abraço
oa.s

Celso Mendes disse...

Da pureza de uma criança pode-se sentir muito melhor o lirismo do cotidiano. A simplicidade da vida salta aos olhos na beleza deste poema.

um beijo.

João de Sousa Teixeira disse...

Que saudades!
Só agora vejo que podia ser no início do Outono:
Truli-ruli-ruli-triluriiii
Era a onomatopeia do amola tesouras
E se se ouvia com nitidez – tal como o apito do comboio –
A minha avó dizia logo: Vem lá chuva!
É: só agora vejo que podia ser no início do Outono…
Truli-ruli-ruli-triluriiii…

Beijinho
João

Rosa dos Ventos disse...

Lindo o poema!
O Outono é feito de tanta coisa...

Abraço

Maria Campos disse...

Lídia,

conseguiu remontar-me à minha infância...

Lindo este poema ! Feito de palavras simples, como gosto e que transmitem tantas sensações...

Um beijo com sabor a castanhas doces embrulhadas em jornal...

Ju disse...

Se bem que o outono não seja a minha estação preferida o poema está muito lindo.
Voltarei.

Isabel disse...

O Outono é feito de coisas simples e a vida toda pode ser feita de coisas simples.
Bonito o poema.
Bom fim-de-semana

manuela baptista disse...

o guarda soleiro que passava, era ele mesmo que encobria o sol!

duvida?

um abraço

manuela

Graça Sampaio disse...

A simplicidade de um pensamento de criança. Muito bonito!

Beijo

Lilá(s) disse...

Com a leitura deste poema tive a sensação de retornar á infãncia!Lindo.
Bjs

Anónimo disse...

A simplicidade das coisas, as suas cores e cheiros.Outono podia ser hoje ou quem sabe se ontem o guardámos numa pequena recordação

Lidacoelho deseja-lhe bom fim de semana

Mona Lisa disse...

Olá Lídia

Finalmente consegui!!!

Recordações da tua meninice numa bela poesia.

Gosto do Outono...da sua suave melancolia.

Bjs.

Teté M. Jorge disse...

Coisas simples que encantam... belos versos outonais.
Um beijo.

AC disse...

De tão belo e simples quase se sente a paragem do tempo...

Bj

Anónimo disse...

Bati, entrei, te li, amei e te segui! Nessa mesma orde, querida. E vou voltar sempre!
Bom fds, beijinhos

Anónimo disse...

Blog maravilhoso e belissimo poema, parabéns!, Já te seguindo por aqui. Bom fds, beijos

Jorge disse...

Maravilhoso poema. Nas pequenas coisas é onde se nota a maior sabedoria.
Regressei ao passado, tempo dos "amola tisoiras", que também afiavam facas, navalhas e reparavam os "sombreiros".
Obrigado pelo apoio ao meu regresso no Scorpio.
Bom fds
J

Maria Rodrigues disse...

Gosto do outono, têm um encanto muito especial, tal como este seu lindissimo poema.
Bom domingo
Beijinhos
Maria

António Gallobar - Ensaios Poéticos disse...

Olá amiga Lídia

Imagens tão lindas... perfume da saudade perdido na bruma dos tempos.

"Revoadas de pássaros apressados
E uma nebelina mansa a empurrar-nos
para dentro de um sentimento sem nome.

...E em pano de fundo "o doce aroma das compotas"

Um maravilhoso poema, sempre recheado de bom gosto, faz com que seja um prazer, passar de quando em vez por aqui.

Beijinhos

Maria Rodrigues disse...

O outono tem uma magia muito especial, tal como este poema maravilhoso, que nos transporta a doces recordações de infância.
Bom domingo
Beijinhos
Maria

Branca(Brancamar) disse...

E uma história de Outono, com os sabores da infância, assim contada em verso, só pode ser tua, Lídia.

Gostei muito, como sempre.

Beijos
Branca

Branca disse...

Ando com dificuldade em alguns blogues em comentar com a minha conta do google, por isso o comentário acima teve que seguir com o nome e sem a imagem habitual. Pelo que tenho lido por aí deu uma maluqueira geral nos blogues. Melhores dias virão, :)

Beijos

Graça Pereira disse...

O Outono é o cheiro das compotas e das maçãs perfumadas apanhadas há poucas horas... Os pássaros em revoadas partem para o sul e a "nebelina mansa ( que ainda não chegou ) a empurrar-nos para dentro de um sentimento sem nome". Não há melhor definição de Outono, do que este teu lindo poema.
beijo
Graça