domingo, 25 de setembro de 2011

Pedagogia e Arte

"Toda a arte é uma revolta
contra o destino do homem".
                    André Malraux


Tenho andado empenhada a reflectir sobre dois conceitos que se interligam quando nos referimos à educação das crianças e jovens. Falo de Pedagogia e Arte, mais propriamente de didáctica da língua e literatura.
Acabo de ler a “Educação pela Arte” de Herbert Read que, tal como Platão (sec. IV a.C.), defende a tese de que a arte deve ser a base de toda a Educação.

Assistimos, ainda hoje, nas nossas escolas a uma indefinição de fronteiras entre o que é matéria textual para crianças (manuais escolares) destinada à aquisição de saberes e o que é o texto literário, (fruição) como concepção estética que vai de encontro aos interesses e necessidades naturais das crianças.
De um lado temos os ofícios que têm como finalidade a lavra de coisas úteis e por outro temos a arte que se refere à lavra de coisas belas, sendo que há um enorme desequilíbrio entre os dois pratos da balança, ficando o texto literário confinado a um reduzido espaço, o que produz efeitos nefastos e irreversíveis na formação de novos leitores.

Se nos fundamentarmos na evidência de que a educação estética é a educação para os sentidos, não nos é difícil concordar com Platão e Herbert Read, pois a inteligência, a lógica a razão, bem como a consciência do mundo que nos rodeia baseia-se nos sentidos e o aumento dessa consciência é o primeiro passo para a liberdade.
A ideia clássica de “educação para a inteligência” que visa transformar a criança num homem/mulher inteligente ao nível do raciocínio lógico, revela-se imperfeita porque ignora a necessidade básica de uma educação para a sensibilidade promotora da expressão da individualidade de cada um, num processo que é, simultaneamente, de integração.
A expressão artística é um acto libertador de energias que carece de afluir para o aperfeiçoamento e desenvolvimento da totalidade do ser.

13 comentários:

paula barros disse...

Excelente reflexão. E devia chegar nas escolas. No Brasil principalmente. Estamos distantes dos alunos, e eles inconformados com o ensino, inadaptados e com razão a educação formal.

abraço

Isabel disse...

Concordo.
Ainda temos muito para fazer, em Portugal.

Rogério G.V. Pereira disse...

O seu texto vem na hora certa. Parece até ter sido resposta a um meu (não explicitado) pedido. Todo ele, mas transcrevo uma parte, esta: "A ideia clássica de “educação para a inteligência” que visa transformar a criança num homem/mulher inteligente ao nível do raciocínio lógico, revela-se imperfeita porque ignora a necessidade básica de uma educação para a sensibilidade promotora da expressão da individualidade de cada um, num processo que é, simultaneamente, de integração."

É que, modo empírico, sentia isso assim como escreve

Sabe que comprei plasticinas e decidi, agora mesmo que a li, tentar "construir" todos os personagens da "Maior Flor do Mundo"? Meu neto Diogo (2 anos feitos em Agosto) vai tentar imitar-me os gestos, como sempre faz. Começarei pelo jeep, depois o escaravelho...

A escola? Talvez entretanto a tal indefinição das fronteiras que refere, seja caso (bem) arrumado...

(Faz bem em, de vez em quando, fazer estas incursões por temas de que tem andado arredada. Obrigado)

Eva Gonçalves disse...

Faz falta uma educação para os sentidos e eu acrescento, também para os afectos!! Se somos acima de tudo, uma soma dos dois, porque não educamos para a vida? escapa-me... Beijo e boa semana

Ricardo Valente disse...

ok, vc venceu!

Artes e escritas disse...

Gostei muito da sua reflexão. Um abraço, Yayá.

João de Sousa Teixeira disse...

Tenho comigo um lado apreensivo cujo tende à desconfiança sempre que novas pedagogias são inventadas e propaladas a velocidade supersónica…
Queira desculpar-me, estou talvez a ser um pouco grosseiro ou, em abono da minha tese, leviano, quanto à crítica às ideias de pensadores tão bem intencionados…
Uma das frases que recordo sempre que deste tema se fala é: “aprender, aprender, aprender sempre!”. Nunca a perdi de vista.
Nesta perspectiva aprender é como comer; se não se “come” não se “vê”. Mas se se “vê”, tal não significa imediatamente que se saiba o que se “come”. É preciso então estudar, experimentar e… aprender. Sempre.
O nosso Óscar Lopes em “Ler e Depois”, Editorial Inova, 1969, cita J.C. Melo Neto para uma curiosa observação:
“…Ao mastigar chiclets se mastiga também, e sem se dar por isso, toda uma filosofia de tempo vazio, fica-se logo na suspeita de que os actos humanos aparentemente mais insignificantes contêm grandes aspirações ocultas, as quais tanto importam ao assalariado gualtemalteco da United Fruit, monopólio dos chiclets, como àqueles privilegiados yankees a que a chewing gun vai, a seco, estimular as glândulas salivares. A vida tem um sentido, um alto sentido, de que faz parte o próprio entusiasmo de descobrir, mesmo a partir da banalidade burguesa ou das misérias de qualquer Nordeste”.
E pronto. Aqui fica o meu beijinho de bom dia e boa aprendizagem.
João

Mel de Carvalho disse...

toda a arte, Lídia, é, essencialmente pedagógica. a escola um palco, um espaço privilegiado de a colocar em prática - assim o entendamos como missão nossa no libertar e valorizar talentos e diferenças.

educar para os talentos. concordo em absoluto.

beijo daqui.
Mel

Mateus Medina disse...

Que maravilha, concordo em gênero, número e grau, principalmente com o último parágrafo.

Acrescentaria ainda ai nesse "miolo" a psicologia, que de cento modo pode (e vem muitas vezes) vir inserida na arte.

Falta educação emocional a todos nós e às nossas crianças também, como é óbvio.

Ensinamos o raciocínio lógico de somar 2 + 2, mas a filosofia (só para citar um exemplo) continua a ser mal abordada e mal ensinada.

Beijos

Mar Arável disse...

Um excelente texto com matéria
para diálogo alargado

Na verdade educar no sentido da criação artística não é fácil
mas é desejável desde que estimular
não seja orientar muito menos comprimir

Bjs

Graça Sampaio disse...

Concordo! Mas o pior é que cada vez mais o ter se sobrepõe ao ser ( e ao sentir); cada vez mais se informa em vez de se formar; as artes e as humanidades são coisa de "poeta" - o que interessa e ser gestor, economista, informatico. E com este ministro - não sei, não!

Bom tema de discussão, querida Lídia.

Mª João C.Martins disse...

A arte é expressão livre da forma como cada um toma consciência do mundo e o recria, acrescentando-lhe algo singular.
Durante o desenvolvimento da criança nada faz mais sentido que estimular, através da educação dos sentidos, a sua curiosidade e capacidade em apreender o mundo e as formas de expressar um outro, diferente e recriado por si. Nascido da sua liberdade de ser, pensar e sentir .
Se assim fosse, em adulto, todo o Homem teria um maior conhecimento e compreensão de si e do outro e de tudo o que o rodeia e saberia que a sensibilidade é imprescindível em qualquer obra, seja ela manifestamente útil ou simplesmente bela.

Excelente!

Um beijinho

Branca disse...

Olá Lídia,

Não me tinha esquecido deste texto, mas por falta de oportunidade na altura só agora o pude ler com atenção e porque nunca passo para fazer de conta que li, deliciei-me agora com cada linha.

Agradou-me imenso esta concepção de educação, que penso já existe em alguns países, embora muito poucos, contam-se talvez pelos dedos e ainda sobram dedos da mão.
Há muito sonho com o dia em que o nosso ensino básico - primeiro ciclo - tenha por exemplo expressão dramática, música, artes plásticas e por aí fora...creio que não seria difícil criar espaços para o desenvolvimento emocional e estético das crianças. Aí sim teríamos cidadãos com escolhas mais conscientes e com maior liberdade.

Muito se poderia dizer sobre o tema, mas aqui está o principal.

Parabéns Lídia e obrigada por esta partilha.
Branca