domingo, 18 de março de 2012
De: Este livro que vos deixo (1978)
«O poeta [...] não é, decididamente, um banal versejador, um rimador de palavras, que podia, como tantíssimos, escrever ortograficamento certo e ser, afinal, inculto.
Foi esta verificação de encontrar num homem de poucas letras uma tal inteligência e uma tal perspicácia que fizeram considerar o caso do poeta Aleixo como um caso singular»
Quem trabalha e mata a fome
Não come o pão de ninguém
Quem não ganha o pão que come
Come sempre o pão de alguém
Há tantos burros mandando
Em homens de inteligência,
Que, às vezes, fico pensando
Que a burrice é uma ciência.
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7 comentários:
Pois é amiga Lídia, parece mesmo que a burrice se tornou cieência.
Um abração. Tenhas uma linda semana.
ola friend
visit from Turkey
boa semana
http://laracroft3.skynetblogs.be http://lunatic.skynetblogs.be
Amiga, adoro António Aleixo e este livro é o número dois mas existe o número 1. Tem quadras maravilhosas e deixo-lhe aqui as que adorei. Beijos com carinho
Sei que pareço um ladrão
Mas há muitos que eu conheço,
Que, não parecendo o que são,
São aquilo que eu pareço.
Embora os meus olhos sejam
Os mais pequenos do mundo,
O que importa é que eles vejam
O que os homens são no fundo.
Eu não tenho vistas largas,
Nem grande sabedoria,
Mas dão-me as horas amargas
Lições de filosofia.
Uma mosca sem valor
Pousa co'a mesma alegria
Na careca de um doutor
Como em qualquer porcaria.
Sou um dos membros malditos
Dessa falsa sociedade
Que, baseada nos mitos,
Pode roubar à vontade.
Finges não ver a verdade,
Porque, afinal, tu compreendes
Que, atrás dessa ingenuidade,
Tens tudo quanto pretendes.
Nós não devemos cantar
A um deus cheio de encantos
Que se deixa utilizar
P'ra bem duns e mal de tantos.
Veste bem já reparaste
Mas ele próprio ignora
Que por dentro é um contraste
Com o que mostra por fora.
Eu não sei porque razão
Certos homens, a meu ver,
Quanto mais pequenos são
Maiores querem parecer.
Acho que já contei, se não contei devia ter contado que conheci Aleixo - sem ser citado - pela voz de meu avô. Tinha ele o condão, e o saber, contar-me histórias à mistura com poemas, num rosário sem fim, que só sua maneira de contar me prendia. Passava de Camões , declamado, a Gil Vicente e deste a Suassuna, cujo "Auto da Compadecida" misturava com o da Barca. Acho que meu avô me deu a primeira lição de estratégia, com recurso ao "Este livro que vos deixo", do Aleixo - assim:
O rato mete o focinho
Sem pensar que faz asneira
Depois, ou larga o toucinho
Ou fica na ratoeira
Nunca mais esqueci, nem deixei de usar...
Embora os meus olhos sejam,
os mais pequenos do Mundo
O que importa é que eles vejam
O que os homens são no fundo.
Quem me vê dirá: não presta,
nem mesmo quando lhe fale,
porque ninguém traz na testa
o selo de quanto vale.
António Aleixo
Ele sabia-o. E em livro nos deixou, o que com ele, muito temos ainda para aprender.
Um beijinho, Lídia
Lídia,
Até para mim é estranho que tenha deixado este post para traz, mas em casa de amigos não deixo uma visita por fazer, nem que seja tardia.
Tenho tido horários complicados e chegado muito tarde. Às vezes só olho e já não tenho capacidade para escrever.
Ao ler Aleixo e a tua homenagem comovi-me com as palavras dele. Ando em dias que tudo me comove, sobretudo o que é dito assim por homens tão inteligentes e sábios como ele e que nos ensinam tanto e nos tocam em dias em que vivemos tempos tão difíceis, quer no trabalho, quer a nível social.
Fico-te grata por mo lembrares porque me deste vontade de ler tudo e de procurar o seu livro, do qual só conheço partes, que aliás sempre admirei.
Beijinho grande e tem dias felizes.
Branca
Engraçado tenho o livro 1 e desconhecia o 2, amanhã já vou aqui:
https://www.facebook.com/photo.php?fbid=452020298151996&set=a.453008608053165.100784.179567915397237&type=1&theater
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