Pego no tema só porque a necessidade de se comemorar [ainda] esta data, deixa a descoberto algumas debilidades na tão apregoada igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres. A mentalidade bafienta que atravessa certos espíritos no tocante a este assunto é incompreensível para quem está atento ao pulsar dos tempos.
Soube-se recentemente que Roma tem um novo cardeal português – Dom Manuel de Castro. Parece-me que a ilustre personalidade julga ter encontrado uma fórmula mágica para combater os males do mundo de hoje. Em pleno século XXI, sua eminência é de opinião de que as mulheres devem ser «devolvidas» à casa, à sua função de fadas do lar, guardiãs do bem-estar não se sabe bem de quem.
Ora, de olhos minimamente abertos à realidade, já ninguém acredita que isto seja possível, além de que, económica e socialmente, é um cenário absolutamente impraticável. As mulheres saíram de casa, estudaram e trabalharam com afinco, conquistaram espaços que lhes eram interditos, apoderaram-se do direito à realização pessoal, à autonomia. Abriram caminhos, definiram metas, derrubaram obstáculos...
Estas já não são as mesmas mulheres que o Estado Novo (nunca será demais lembrá-lo) punia por lei. Efetivamente, a Constituição da República, no seu 5.º artigo, determinava que todos os cidadãos eram iguais perante a lei «salvas feitas à mulher pelas diferenças resultantes da sua natureza e do bem da família». Eram os tempos em que por trabalho igual, elas recebiam menos 40% do que eles. Eram os tempos em que, segundo o Código Civil em vigor até 1975, eles eram os chefes de família, cabendo-lhes a elas o governo doméstico, eles estavam habilitados a dispor dos salários delas ou a proibi-las de trabalhar fora de casa, cabia-lhes o direito de abrirem a correspondência delas e, até 1969, elas não podiam viajar para o estrangeiro sem uma autorização deles.
As mulheres, apesar de tudo, libertaram-se da pressão do jugo machista e, hoje, colocam-se ombro a ombro com os homens, para o bem e para o mal e, não obstante o que ainda há para corrigir, já muito caminho foi andado e esse caminho, Senhor Cardeal, é um percurso sem retorno, definitivamente.

9 comentários:
parabéns pelo conquistado e pelo que
ainda há de vir,
beijo
Comemorar não é festejar é lembrar o que deve ser lembrado, e é tanto de cuja parte bem lembrou... o homem tende a ser mais mulher e a mulher a ser mais homem. Que se risque de vez o livro e a costela regresse a onde de nunca deve ter saído.
Fica esta prenda e um beijo
Clap!Clap!Clap!
Eu não sou muito afeito a dias "disso", "daquilo" e "daquilo outro".
Até comentei sobre isso há pouco no facebook, porque ironicamente, me surgiu uma insparação bem... clichê para um poema, justamente sobre as mulheres, no dia da mulher. Ora, inspiração não se rejeita, mesmo que seja clichê, então eu fiz e publiquei.
No entanto, várias de minhas amigas comentavam sobre o que (ainda)esconde os "parabéns" pelo tão falado dia. Que preferem a atitude de todo dia em respeito e admiração à mulher, do que um dia para "celebrar" e o restante para esquecer, por parte de mentes atrofiadas, como a que citas no texto. E eu concordo com elas.
Fantástico! Bela reflexão!
Se não se importa, irei partilha-la no Facebook =)
bjos
Perante este texto sou levada a recordar o que avançámos em tão pouco tempo, e o que já perdemos ainda em menos tempo.
Temo que o dia 8 de Março tenha que continuar a ser comemorado durante muitos mais anos, não apenas como efeméride, mas como forma de luta.
Beijo.
SER MULHER
É ser fêmea
De sublime fecundação
É ser o âmago
O centro
O cálice
Da divina criação
Ser mulher
É ser receptora
É ser o elo
A continuação
Do cordão umbilical
Mas ser mulher
É muito mais
É ser força
Superior á igualdade
É ser a fonte
A terra
É ser a escolhida
Para Mãe da humanidade.
Publicada por dilailasilv
COM UM BEIJO OFEREÇO A MINHA VERSÃO!!!
LÍDIA
Amiga Lídia. Eu li esta afirmação feita pelo Cardeal,mas andamos tanto tempo a lutar e ainda se continua,por direitos e igualdades,onde a mulher felizmente tem alcançado patamares de responsabilidade,querem voltar atrás no tempo,para isso lemos e ouvimos todos os dias.Devemos caminhar lado a lado do homem pelo direito ao trabalho, salário igual e escravatura feita a muitas por este planeta fora.
Beijinho e b dia da mulher
Minha querida
Desejo que todos os teus dias...se vistam de amanhecer
Que a tua alma seja inundada de paz...amor e esperança
Que a felicidade encha de alegria o caminho a percorrer
Sorri sempre à vida...e nunca te esqueças de ser criança
Feliz dia da Mulher
Um beijinho com carinho
Sonhadora
Muito bem Lídia, estava a ler o teu texto e a lembrar-me da ridícula autorização para viajar e outras semelhantes, mas cheguei ao fim e vi que nao te esqueceste de nenhuma.
Mas, será que alguém ainda ouve as vozes bafientes destes cardeais metidos a ridículo e sem lucidez nenhuma para saberem em que tempo vivem?
Tal como diz a Maria e porque também não sou muito adepta de dias, acho sobretudo que o que vale hoje é homenagear a coragem do acto que deu origem a este dia e continuar a luta por dias melhores, com a colaboração dos homens que o sabem ser.
Beijos.
Desculpa a troca de letras, nos últimos anos o meu teclar é por vezes um pouco dislexico e à noite já nem a vista cansada o detecta.
Ressalvo bafientos e não bafientes.
Beijo.
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