Há um punhado de versos por revelar
exíguos e desamparados na insegurança da voz.
Simbólico,
ter-me lembrado deles na aspereza deste solo
seco e desolado, deserto de gente e génio.
Lídia Borges
Há exceções muito relevantes, felizmente.
Sou admiradora incondicional da obra de Manuel António Pina (lírica e narrativa destinada a crianças e jovens) e uma leitora assídua das suas crónicas quinzenais na revista Notícias Magazine que sai ao domingo com o Jornal de Notícias.
«Dos pobres aproveita-se tudo» é o título da última (ontem). Depois de a ler, não resisti ao impulso de transcrever esta “coisa fantástica” que melhor a não sei adjetivar, no meio de tantas outras coisas fantásticas que vão proliferando por aí, neste "nosso" belo "jardim à beira-mar plantado". Vejamos:
«Verificando que o governo, executor das imposições políticas e económicas da Troika, todos os dias cria mais pobres e carenciados e torna ainda mais pobres os que já o são, a Assembleia da República (à qual cabe além de “fazer leis”, “apreciar os actos do governo e da administração”) decidiu fazer alguma coisa quanto ao assunto. E que fez ela? Apreciou os actos do governo e da administração? Legislou? Não: decidiu oferecer aos pobres... as sobras alimentares do refeitório, restaurantes e cafetarias do Parlamento.
À maneira do engenheiro Álvaro de Campos “ com lágrimas (autênticas) nos olhos”, a Assembleia da República deu assim aos pobres («Pobres dos pobres, são pobrezinhos/Almas sem lares, aves sem ninho») tudo quanto tinha na algibeira onde tinha pouco» [...]
Com uma mão aprova Orçamentos que aprofundam a miséria e a desigualdade entre os portugueses, Códigos de Trabalho que permitem atirar cada vez mais gente para o desemprego, leis que limitam dramaticamente os direitos sociais das camadas mais vulneráveis da população, [...]. Com a outra mão, assume pesarosa, a sua “responsabilidade social” dando de comer a quem tem fome com o que sobra da refeição dos senhores deputados.
[...]
Manuel António Pina

13 comentários:
*
é feio,
diria, muito feio,
caluniar os politicos,
que culpa têm os "ditos"
que os pobres,
acreditem nos seus (ditos) ?
srsrsrsrsr.
,
"pobres" conchinhas, ficam !
,
*
Vou-me eu queixando, de quando em quando, de não ouvir os homens das das artes, das palavras, intervirem com os seu dizeres e saberes, a denunciar a realidade destes momentos. Quanto muito, se ouvem lamentos. Te agradeço o texto (e o poema), que demonstra que há ilhas de excepção.
Como agradecimento a teu alerta, deixo aqui essa crónica completa
Também gosto muito das crónicas...e não só de Manuel António Pina.
Ontem li todo o texto de onde retiraste este extracto!
Se os deputados da Assembleia da República legislassem e agissem em conformidade não teríamos o país que temos e não era preciso esta caridadezinha!
Abraço
Deixo o meu beijinho e uma flor
Olá Lídia,
É tão triste e revoltante esta mentalidadezinha, que nem sei se merece comentários por tão evidente a hipócrisia e tão aviltante. Voltamos aos tempos da "caridadezinha", da necessidadezinha que os ricos(à custa dos pobres) têm de que eles existam para se pavonearem cinicamente de "bonzinhos" e é urgente que os operários e todos os pobres renasçam e exijam como seu não as sobras, mas todo o refeitório e tudo o que pagam e é seu.
"Operário em construção" (excerto) Vinicius de Morais
........................
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
.......................
- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
........................
Para não trancrever aqui todo o longo e fantástico poema de Vinicius, pretendo apenas lembrar que há que fazer uma releitura prática para os tempos actuais e fazer renascer uma consciência operária, que reponha a verdade das coisas.
Beijos
Branca
há quem cuide dos pobres para cuidar de interesses outros,
beijo
Aos pobres...é sempre possível tirar mais alguma coisa...nem que seja a pele!!
Beijo
Graça
Pior ainda é quando o poder está ao serviço da economia selvagem
por escrutínio secreto
mas porque em Abril tudo floresce
pelo sonho é que vou
contra a canalha
um artigo pertinente e que "doi" ler.
um beij
Pobres, praticamente mortos/vivos...
Beijos.
Adorei ler esta crónica - como quase todas as de MAP! É contundente.
Há algo de perverso em tudo isto. Não tinha lido o artigo, mas vi a notícia na televisão, e o meu primeiro pensamento foi exactamente de indignação pela hipocrisia. Mas o que mais me assusta, é que aquilo que me parece ser um comportamento profundamente desumano ( a solidariedade falsa é desumana), começa a generalizar-se para além das forças do poder ou então, se estendeu até elas, como algo perfeitamente aceitável e digno de notícia, como uma benfeitoria social.
Inquietante, este viver incongruênte entre o que se faz, o que se diz e o que se sente. Entre uma mão que tira e outra que dá, só pode existir uma forma, escandalosamente, doente de pensar.
Um beijo
Congratulo-me com a lucidez de Manuel António Pina.
Já quanto aos senhores deputados, prefiro não dizer o que me vai na alma.
Beijo :)
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