segunda-feira, 16 de abril de 2012

«Dos pobres aproveita-se tudo»

Pintura: Morteza Katouzian


Há um punhado de versos por revelar
exíguos e desamparados na insegurança da voz.
Simbólico,
 ter-me lembrado deles na aspereza deste solo
seco e desolado, deserto de gente e génio.
Lídia Borges


Há exceções muito relevantes, felizmente.
Sou admiradora incondicional da obra de Manuel António Pina (lírica e narrativa destinada a crianças e jovens) e uma leitora assídua das suas crónicas quinzenais na revista Notícias Magazine que sai ao domingo com o Jornal de Notícias.
«Dos pobres aproveita-se tudo» é o título da última (ontem). Depois de a ler, não resisti ao impulso de transcrever  esta “coisa fantástica” que melhor  a não sei adjetivar, no meio de tantas outras coisas fantásticas que vão proliferando por aí, neste "nosso" belo "jardim à beira-mar plantado". Vejamos:

«Verificando que o governo, executor das imposições políticas e económicas da Troika, todos os dias cria mais pobres e carenciados e torna ainda mais pobres os que já o são, a Assembleia da República (à qual cabe além de “fazer leis”, “apreciar os actos do governo e da administração”) decidiu fazer alguma coisa quanto ao assunto. E que fez ela? Apreciou os actos do governo e da administração? Legislou? Não: decidiu oferecer aos pobres... as sobras alimentares do refeitório, restaurantes e cafetarias do Parlamento.
À maneira do engenheiro Álvaro de Campos “ com lágrimas (autênticas) nos olhos”, a Assembleia da República deu assim aos pobres («Pobres dos pobres, são pobrezinhos/Almas sem lares, aves sem ninho») tudo quanto tinha na algibeira onde tinha pouco» [...]
Com uma mão aprova Orçamentos que aprofundam a miséria e a desigualdade entre os portugueses, Códigos de Trabalho que permitem atirar cada vez mais gente para o desemprego, leis que limitam dramaticamente os direitos sociais das camadas mais vulneráveis da população, [...]. Com a outra mão, assume pesarosa, a sua “responsabilidade social” dando de comer a quem tem fome com o que sobra da refeição dos senhores deputados.
[...]
Manuel António Pina

Vale a pena uma leitura integral deste texto. (aqui)

13 comentários:

poetaeusou . . . disse...

*
é feio,
diria, muito feio,
caluniar os politicos,
que culpa têm os "ditos"
que os pobres,
acreditem nos seus (ditos) ?
srsrsrsrsr.
,
"pobres" conchinhas, ficam !
,
*

Rogério G.V. Pereira disse...

Vou-me eu queixando, de quando em quando, de não ouvir os homens das das artes, das palavras, intervirem com os seu dizeres e saberes, a denunciar a realidade destes momentos. Quanto muito, se ouvem lamentos. Te agradeço o texto (e o poema), que demonstra que há ilhas de excepção.

Como agradecimento a teu alerta, deixo aqui essa crónica completa

Rosa dos Ventos disse...

Também gosto muito das crónicas...e não só de Manuel António Pina.
Ontem li todo o texto de onde retiraste este extracto!
Se os deputados da Assembleia da República legislassem e agissem em conformidade não teríamos o país que temos e não era preciso esta caridadezinha!

Abraço

Flor de Jasmim disse...

Deixo o meu beijinho e uma flor

Branca disse...

Olá Lídia,

É tão triste e revoltante esta mentalidadezinha, que nem sei se merece comentários por tão evidente a hipócrisia e tão aviltante. Voltamos aos tempos da "caridadezinha", da necessidadezinha que os ricos(à custa dos pobres) têm de que eles existam para se pavonearem cinicamente de "bonzinhos" e é urgente que os operários e todos os pobres renasçam e exijam como seu não as sobras, mas todo o refeitório e tudo o que pagam e é seu.

"Operário em construção" (excerto) Vinicius de Morais
........................
Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.
.......................
- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.
........................

Para não trancrever aqui todo o longo e fantástico poema de Vinicius, pretendo apenas lembrar que há que fazer uma releitura prática para os tempos actuais e fazer renascer uma consciência operária, que reponha a verdade das coisas.

Beijos
Branca

Unknown disse...

há quem cuide dos pobres para cuidar de interesses outros,


beijo

Graça Pereira disse...

Aos pobres...é sempre possível tirar mais alguma coisa...nem que seja a pele!!
Beijo
Graça

Mar Arável disse...

Pior ainda é quando o poder está ao serviço da economia selvagem
por escrutínio secreto

mas porque em Abril tudo floresce
pelo sonho é que vou
contra a canalha

© Piedade Araújo Sol (Pity) disse...

um artigo pertinente e que "doi" ler.

um beij

Mona Lisa disse...

Pobres, praticamente mortos/vivos...


Beijos.

Graça Sampaio disse...

Adorei ler esta crónica - como quase todas as de MAP! É contundente.

Mª João C.Martins disse...

Há algo de perverso em tudo isto. Não tinha lido o artigo, mas vi a notícia na televisão, e o meu primeiro pensamento foi exactamente de indignação pela hipocrisia. Mas o que mais me assusta, é que aquilo que me parece ser um comportamento profundamente desumano ( a solidariedade falsa é desumana), começa a generalizar-se para além das forças do poder ou então, se estendeu até elas, como algo perfeitamente aceitável e digno de notícia, como uma benfeitoria social.
Inquietante, este viver incongruênte entre o que se faz, o que se diz e o que se sente. Entre uma mão que tira e outra que dá, só pode existir uma forma, escandalosamente, doente de pensar.


Um beijo

AC disse...

Congratulo-me com a lucidez de Manuel António Pina.
Já quanto aos senhores deputados, prefiro não dizer o que me vai na alma.

Beijo :)