domingo, 3 de junho de 2012

Nada falta a quem nada espera

Assim, tão inteiramente imbuído de realidade, o mundo exibia uma tamanha nitidez que lhe parecia verdadeiramente estranho ter sido senhor de sonhos e ilusões, em algum tempo.
Agora já nada lhe faltava! Nada falta a quem nada espera.
Repetiu-o para si três vezes, esse número mágico capaz de dissolver os efeitos de uma realidade que fere como lâmina gelada. Que não contassem com ele. Não possuía a arte de decifrar as engenhosas armadilhas do mundo, além de que, as malévolas moiras do destino (curiosamente são três) que lhe comandavam a vida, insistiam em lhe afirmar a sua proclamada exiguidade.
Recolhia os destroços sangrentos de uma batalha por travar.
E via-se anoitecer, preso numa rede de linhas, tecida em enredos disfóricos.  

13 comentários:

Sara disse...

É verdade que as expectativas podem ser grandes armadilhas. Mas não é menos verdade que viver sem nada esperar, sem nada projectar, sem nada almejar, é já morte.

Beijinhos e boa semana!

Rogério G.V. Pereira disse...

Não quero comentar...
lembra-me coisas, cada dia que passa, cada vez mais presentes
(lembra-me um livro há muito lido, de Élio Vitorino, do qual nem sequer quero pronunciar o título)

Manuel Veiga disse...

serena aceitação da vida.

apesar das batalhas que ficaram por travar...

texto e foto - belos ambos.

beijo

P. P. disse...

Brilhante!
E a pintura... Tão real!
Bj

Isabel disse...

É assim muitas vezes e em muitas situações: nada nos falta se nada esperamos. Quando esperamos demais podemos ficar bem decepcionados.

Boa semana

Mª João C.Martins disse...

" Que não contassem com ele"
Infelizmente, nem precisava de o dizer. Quando se anoitece, já ninguém vê a vida que se transporta, tecida sob a pele. Já não há luz que ilumine a aparente inutilidade. Fica-se mais só, fica-se mais triste e, na contemplação da realidade, tudo o que se espera é o que já sabia esperar desde que se amanhece.

Um beijinho

Lilá(s) disse...

Este texto faz-me pensar no dia em que a velhice nos atinge! estremeci porque é uma realidade
Bjs

Mar Arável disse...

Quando envelhecem
os jovens com experiência

mesmo assim são bibliotecas
de utilidade pública

Um texto para reler

Branca disse...

Excepcional texto Lídia! Já o li mais que uma vez e é tão real e profundo que se torna impossível dizer mais, está lá tudo, numa prosa rica, capaz de fazer sombra a qualquer sonante nome literário.

Por aqui sempre que posso, apesar de o meu ritmo ser agora mais lento.

Beijos
Branca

Graça Sampaio disse...

E são tão poucos os que nada esperam... Texto tão bem conseguido! Muito bom.

Parabéns, poeta!

Jorge Pimenta disse...

na translucidez de um mundo trajado a realidade, como saber o que em nós está completo? há tanto a acontecer na face oculta da fotografia...

beijinho, lídia!

Isa Lisboa disse...

Quando a noite se nos encerra assim, o melhor é sentar, como na foto, e repensar o caminho...

Anónimo disse...

Texto literário e filosófico também! Este não esperar não é passividade! É não criar falsas expetativas para si e nos outros:
não se oferecer, na medida em que cada um se deve autoajudar!

Beijinho, Lídia!