domingo, 7 de outubro de 2012

Sophia

                                              Danuta wojciechowska


Leio agora  mais do que escrevo. Não sinto, tão vivo, o apelo da escrita, pelo menos com aquele misterioso carácter de urgência que nunca percebi muito bem. 
Tenho andado a deambular entre a poesia e a prosa de Al Berto. O Todas as Palavras de Manuel António Pina inspira-me. Perco-me no [quase] surrealismo de Fiama e até Daniel Faria de quem pouco esperava, muito me tem dado. Sou portanto adversa ao sedentarismo literário e defendo o "donjoanismo" descarado e aberto nesta matéria, ao contrário de outras, onde o estável é, para mim, sinónimo de equilíbrio. Trabalhoso, sim, mas sempre compensador. 
Bem, tudo isto para dizer que, por muitas voltas que dê, volto sempre a Sophia. Fico com saudade da sua poesia logo que lhe oiço o nome.
Agora foi a notícia de um inédito que a autora deixou incompleto - Os ciganos. Trata-se de um conto para crianças que o neto Pedro concluiu, sem querer imitar a avó, segundo nos diz, mas para dar corpo a uma história cuja mensagem fala de sonhos e da importância de não desistir deles.  
Li em pré publicação, no JL, as primeiras páginas e encontrei Sophia, de imediato numa ideia que é recorrente na sua obra destinada aos mais novos: crianças e adultos habitam universos distintos. O espaço de  interseção existe, mas é terreno que requer muita lavra. A criança tão perto do mundo natural não pode ser ela própria no mundo dos adultos. Estes, tão longe das origens, preocupam-se em "libertar" a criança, o mais depressa possível, da "doença da infância " como chegou a ser entendida esta fase da vida humana, antes de Rousseau. 
Porque entendo nunca ser demais realçar o respeito pela Criança que a obra de Sophia deixa antever trago aqui um excerto  de: Os Ciganos: (páginas iniciais)

Parecia-lhe que algures no vasto mundo, se estava a preparar uma festa incrível a que ele não poderia assistir, porque a festa se passava fora dos muros e ele estava preso dentro dos muros.
Ele estava preso nos muros da sua casa, nos horários dos relógios e nas ordens da família. Estava preso pelas ordens que o mandavam levantar quando tinha sono e que o mandavam deitar quando não tinha sono, que o mandavam estar quieto quando queria correr e que o mandavam estudar quando queria cismar à sombra da tília no fundo do jardim.
A família toda pensava incessantemente nele. Quando se constipava davam logo por isso, quando ele não estudava davam logo por isso... E cada um dos seus impulsos se esbarrava contra sucessivos círculos de atenção, de vigilância e de pesada e inquieta ternura.

"Outros tempos!" - Dir-me-ão. Mas a mesma necessidade de ver o mundo pelos  próprios olhos. Sob vigilância, naturalmente, mas discreta para que possam ser crianças, para que não se inibam de jogar ao "faz de conta" sempre que o lúdico da sua natureza o exija. 
 Dou comigo a pensar nas crianças de hoje. A sociedade está a roubar-lhes com descaramento e malfeitoria a Infância a que têm direito. 

Lembro que há crianças do 1.º ciclo (entre os seis e os dez anos) que  trabalham mais horas por dia que os adultos.


  

11 comentários:

Ana disse...

Perpetuar Sophia !

Sara disse...

Partilho desta tendência para o "donjoanismo" literário, mas admito que há sempre aqueles autores que nos acompanham, aqueles a que se regressa com vontade ou necessidade renovada. Por coincidência, ainda hoje li Sophia, poemas do "Livro Sexto". Um regresso que sabe bem, nestas tardes de outono.

Sílvia Mota Lopes disse...

beijinho:)
passei por aqui, por acaso já o conhecia, isto é por fora, quem o escreveu...ler ainda não li mas hei de ler:)

Lilá(s) disse...

A minha dor de alma é grande quando penso no ensino. As nossas crianças vão ser as maiores vitimas deste desatino actual.
Bjs

Armando Sena disse...

"Não sinto, tão vivo, o apelo da escrita". Poderia rematar que é uma pena, que nos priva desse prazer ou exultar pela falta de necessidade que parece uma bênção.
Será certamente um bom sinal.
Cpts

Graça Sampaio disse...

Pois é verdade. Mas os pais estão tantas horas fora de casa e há que "entretê-las" na escola e nos ATL. Os avós "não existem" como antigamente e não podem ficar "fechados" na rua. Sinais dos (maus) tempos.

Tenho o "Todas as Palavras" de Manuel António Pina que vou lendo. Mas que difícil é de abarcar! Lembro-me de quando, na Faculdade, nos mandaram ler Ezra Pound em inglês sem que o professor nos desse umas luzes, umas orientações para o entendermos. Embirrei. Tinha 19 anos e muito mais em que pensar...

O ensino, antigamente, era bem pior do que agora. Apesar da opinião tosca do povo em geral e do ministro (C)rato.

Rogério G.V. Pereira disse...

Ela, Sophia, ensina a escrever
A viver
A crescer

O DN Magazine publicou extensas passagens de "Os ciganos"...

Unknown disse...

bela reflexão,


beijo

Branca disse...

Ler Sophia é sempre assombrosamente encantador e pedagógico.

A castração dos modelos de ensino dos últimos anos é uma grande verdade e já se vem reflectindo desde há vários anos. Via com alguma pena a minha filha vir muitas vezes carregada de trabalhos de casa e de exigências várias que por vezes também eram impostas aos professores para que a escola apresentasse resultados. Eram muitas as horas antes e pós jantar, as horas de serão que eram preenchidas e quantas vezes mesmo fins de semana inteiros. Uma autêntica escravatura infantil.

Aliás a moda do trabalho por objectivos seja em que área fôr tem transformado as pessoas mais em números que em seres humanos. É no ensino e na saúde, sectores primordiais na história de um povo, onde contam mais as estatísticas, nem sempre muito correctas dos números atendidos e dos resultados frios e crus, que da qualidade do atendimento ou da educação integral.

Gostei muito do texto e muito haveria a dizer...porque apesar de tanto trabalho os jovens se sentem tão perdidos no caminho, face a essa infância perdida, à falta de contacto com a natureza e a vida, à falta de contacto com a sua própria natureza.

Tem uma boa semana
Beijinhos.

ana disse...

Também li no JL e estou com muita expetativa.
Adoro a poesia dela. Quanto ao "donjoanismo", achei graça e confesso que agora leio mais do que escrevo ludicamente.
Boa tarde!

Mª João C.Martins disse...



Em boa hora aparece, mais um inédito de Sophia. Em boa hora, porque é cada vez mais necessário ver o mundo de uma outra forma e libertar os olhos.

Um beijinho