sábado, 1 de dezembro de 2012

Do alto...


                                                                                                                                                          Imagem net
Sobe-se ao Bom Jesus para se ver tudo
Do alto, apesar do canudo e da depuração do ar,
Do tudo, escasso se faz o que se vê.
Não se vê quase nada, diz até
quem do ver  tem uma visão ampliada.

Cai por terra a teoria de se poder ver 
o mundo, sobrevoando-o.
Um chão de telhas não revela uma cidade.

Desce-se, então a encosta,
com os sentidos à mão
e entra-se nos povoados.
Começa-se a ver,
ouvindo o  homem na horta 
o outro, à porta do café,
tossindo carência, 
a mulher que varre o terreiro
com gestos desatentos.

É preciso entrar com ela, em casa,
pela cozinha onde a lareira
se apagou há muito e
 permanecer, com tempo,
 na sala onde a mesa não está posta.

A voz timidamente ensina-nos
o caminho da alma, abre-nos portas invisíveis.

E, numa súbita ternura,
aprende-se como se dá cor a um fruto
e perfume a uma rosa,
Quando os dias cerrados  
empenam o respirar e calam os pássaros.

Aprende-se o peso de uma lágrima
Quando o olhar perde o medo de esgotar a alegria,
De se deixar ferir, de se deixar molhar, 
irremediavelmente.

Se, à saída, ainda fores o mesmo,
então lava daí as tuas mãos e volta lá acima,
para junto das estátuas.

Espreita pelo canudo. Vê-se tudo!...



13 comentários:

Graça Sampaio disse...

Muito lindo, Lídia! «Um chão de telhas não revela uma cidade» - muito, muito belo!

Eu conheço o lugar que é lindo. Mas neste teu texto, o que menos interessa é a paisagem...

Beijos, Poeta!

Jorge disse...

Lá do alto, temos uma visão uniforme das coisas. Para as conhecermos temos que ser curiosos, temos que as procurar, estarmos atentos e sensíveis.
Bj
J

Flor de Jasmim disse...

"Quando o olhar perde o medo de esgotar a alegria"
Lindo e comovente!
Restinho de bom fim de semana minha amiga

beijinho e uma flor

Sonhadora (Rosa Maria) disse...

Minha querida

Uma linda viagem descrita num belo poema.
Bom fim de semana

Um beijinho com carinho
Sonhadora

chica disse...

Maravilha, Lidia e do alto, vê -se tudo o que imaginamos ou não...beijos,lindo DEZEMBRO!chica

lis disse...

Oi Lídia
Muito bonito e lembrei desse verso:
'para se ter uma campina /é preciso um trevo e uma abelha/um trevo,uma abelha e a fantasia."
É preciso muito mais do que simplesmente olhar do alto-é preciso descer ao chão, ir a campina e ver a 'mulher que varre o terreiro...".
bonito.
fica o abraço e desejos de um bom domingo

Anónimo disse...

Lídia,

Ler o que escreve é fácil, mas interpretar, é bem mais difícil.
A sua escrita não é para "brincadeiras"!
Do alto... tantas entrelinhas. Há viagens, que enaltecem, outras, talvez não, mas Braga por um canudo, talvez seja uma opção (não queria rimar, mas aconteceu).

Beijo da Luz, com apreço.

Lilá(s) disse...

Do alto, vê -se tudo, até o que imaginamos mas, descrito assim em poesia até em Dezembro a paisagem tem beleza.
Bjs

Unknown disse...

que belo descortinar: amplidão



beijo

lino disse...

Dali vi o "mundo" há quase sessenta anos!
Beijinho

Rosa Carioca disse...

Muito lindo! Não sei o que comentar...

Nilson Barcelli disse...

Esse canudo está sempre lá... e Braga tem outro encanto...
Como não estou longe, gosto de ir ao Bom Jesus de vez em quando.
Gostei muito deste teu poema, é excelente.
Beijo, querida amiga Lídia.
(não sabia que eras bracarense...)

Rogério G.V. Pereira disse...

Por estar
Num estar
Vendo quase tudo
Perdi, nesse porquê
O teu poema
De onde tudo se vê

(hoje não trouxe os adjectivos comigo
Iria, por certo, deixá-los todos no seu espaço)