Como não me apetece falar de chaminés que já me encheram o telemóvel de fumo negro, vou falar de janelas.
Sim, gosto muito de janelas. Não de estar à janela, mas de janelas. Onde quer que vá, olho para as janelas, reparo na forma, no tamanho, nas cortinas, se têm flores, se não têm flores e ponho-me a imaginar as histórias que elas guardam, não só as que descortinam do lado de fora, como também as outras a que assistem quando se voltam para dentro.
Escrevo o que vejo da minha janela, muitas vezes, mesmo não estando à janela, mesmo quando tenho de pegar nela aos ombros e de a transportar, de um lugar para outro, de melhor perspectiva. Andava até a pensar escrever um texto com o propósito de defender as ventanas dos que lhes atribuem uma função meramente contemplativa, colocando o enfoque precisamente na perspectiva, no grau de arejamento da mente de quem observa, no modo diferenciado que cada um tem de olhar e de ver a mesma paisagem.
Esperava poder "colar" esta ideia de perspectiva ao simbolismo da palavra "janela" quando, por acaso, encontrei um livrinho, chamado A ovelha negra e outras fábulas de Augusto Monterroso, numa tradução de Ana Bela Almeida que parecia estar ali mesmo à minha espera.
É um conjunto de microcontos, carregados de humor, que mais não faz do que "atualizar" fábulas conhecidas de todos, dando-lhes um toque de contemporaneidade através de um olhar crítico e cheio de ironia.
Reparem na forma como o "Bem" olha pela janela:
Monólogo do Bem
"As coisas não são assim tão simples" pensava naquela tarde o Bem "como crêem algumas crianças e a maioria dos adultos."
"Todos sabem que em certas ocasiões eu me oculto por trás do Mal, como quando ficas doente e não podes apanhar um avião e o avião cai e não se salva vivalma; e que às vezes, pelo contrário, o Mal se esconde por trás de mim, como naquele dia em que o hipócrita Abel se fez matar pelo seu irmão Caim para que este ficasse mal perante todo o mundo e não pudesse recuperar jamais."
"As coisas não são assim tão simples"
Monterroso (s/d:p.63)

14 comentários:
Quando estive em Portugal, gostei de observar as janelas, os formatos, os enfeites, diferentes das de onde moro.
Muito bom, amiga Lídia.
Um abraço. Tenhas uma boa noite.
Pois não, as coisas não são assim tão simples!
Gostei do seu texto e achei a imagem lindíssima; principalmente pela lembrança dourada de um saudoso sol de Primavera.
Um beijo
Se deixarem as crianças em paz
já é um avanço
Ufa,... também eu gosto muito de janelas. Sobretudo das antigas. Sonho com os segredos que escondem! Tempos houve em que fotografá-las era para mim um passatempo :)
Abraço
Também gosto de janelas
Sonho até
Ver defenestrar, por elas
Traidores, serviçais e tagarelas
E não perco a sentida esperança
De, do alto de uma janela, um dia
O esperado anúncio, até nós venha
Habemus pan
e sentir no ar o odor a lenha
Adoro janelas, suas formas, cortinas, flores que as enfeitam...As janelas da alma igualmente, os olhos! beijos,chica
É verdade, as coisas não são assim tão simples. :)
Também gosto de janelas, de olhar para elas, de as fotografar...
Esses contos prometem. Hei-de procurá-los. Bjs
o Bem olha pela janela e eu contemplo, belo
beijo
Um belo tema, a janela no sentido metafórico, uma visão para a realidade ou para o sonho, consoante o distanciamento e a ilusão.
beijo
As coisas não são assim tão simples!
Nem as janelas, as antigas!...
Beijinhos!
As coisas não são mesmo nada simples.
Beijinhos, Lídia.
As janelas são uma bela temática.
Gosto de cortinas e espreitar por elas, também do lado de fora.
Sou curiosa, só isso.
Um beijinho
Janelas, e todo o misticismo à sua volta, criado por quem as lê, por quem as imagina.
Bjs Lídia
cvb
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