quarta-feira, 13 de março de 2013

Janelas



Como não me apetece falar de chaminés que já me encheram o telemóvel de fumo negro, vou falar de janelas.
Sim, gosto muito de janelas. Não de estar à janela, mas de janelas. Onde quer que vá, olho para as janelas, reparo na forma, no tamanho, nas cortinas, se têm flores, se não têm flores e ponho-me a imaginar as histórias que elas  guardam, não só as que descortinam do lado de fora, como também as outras a que assistem quando se voltam para dentro. 
 Escrevo o que vejo da minha janela, muitas vezes, mesmo não estando à janela, mesmo quando tenho de pegar nela aos ombros e de a transportar, de um lugar para outro, de melhor perspectiva. Andava até  a pensar escrever um texto com o propósito de  defender as ventanas dos que lhes atribuem uma função meramente contemplativa, colocando o enfoque precisamente na  perspectiva, no grau de arejamento da mente de quem observa, no modo diferenciado que cada um tem de olhar e de ver a mesma paisagem. 
Esperava poder "colar" esta ideia de perspectiva  ao simbolismo da palavra "janela" quando, por acaso, encontrei um livrinho, chamado A ovelha negra e outras fábulas de Augusto Monterroso, numa tradução de Ana Bela Almeida que parecia estar ali mesmo à minha espera. 
 É um conjunto de microcontos, carregados de humor, que mais não faz do que  "atualizar"   fábulas  conhecidas de todos, dando-lhes um toque de contemporaneidade através de um olhar crítico e cheio de ironia. 
Reparem na forma como o "Bem" olha pela janela:

Monólogo do Bem

"As coisas não são assim tão simples" pensava naquela tarde o Bem "como crêem algumas crianças e a maioria dos adultos."
"Todos sabem que em certas ocasiões eu me oculto por trás do Mal, como quando ficas doente e não podes apanhar um avião e o avião cai e não se salva vivalma; e que às vezes, pelo contrário, o Mal se esconde por trás de mim, como naquele dia em que o hipócrita Abel se fez matar pelo seu irmão Caim para que este ficasse mal perante todo o mundo e não pudesse recuperar jamais."
"As coisas não são assim tão simples"

Monterroso (s/d:p.63)




14 comentários:

Paula Barros disse...

Quando estive em Portugal, gostei de observar as janelas, os formatos, os enfeites, diferentes das de onde moro.

Dilmar Gomes disse...

Muito bom, amiga Lídia.
Um abraço. Tenhas uma boa noite.

Isabel disse...

Pois não, as coisas não são assim tão simples!
Gostei do seu texto e achei a imagem lindíssima; principalmente pela lembrança dourada de um saudoso sol de Primavera.
Um beijo

O Puma disse...


Se deixarem as crianças em paz

já é um avanço

P. P. disse...

Ufa,... também eu gosto muito de janelas. Sobretudo das antigas. Sonho com os segredos que escondem! Tempos houve em que fotografá-las era para mim um passatempo :)
Abraço

Rogério G.V. Pereira disse...

Também gosto de janelas
Sonho até
Ver defenestrar, por elas
Traidores, serviçais e tagarelas

E não perco a sentida esperança
De, do alto de uma janela, um dia
O esperado anúncio, até nós venha

Habemus pan
e sentir no ar o odor a lenha

chica disse...

Adoro janelas, suas formas, cortinas, flores que as enfeitam...As janelas da alma igualmente, os olhos! beijos,chica

deep disse...

É verdade, as coisas não são assim tão simples. :)

Também gosto de janelas, de olhar para elas, de as fotografar...

Esses contos prometem. Hei-de procurá-los. Bjs

Unknown disse...

o Bem olha pela janela e eu contemplo, belo


beijo

Armando Sena disse...

Um belo tema, a janela no sentido metafórico, uma visão para a realidade ou para o sonho, consoante o distanciamento e a ilusão.
beijo

vieira calado disse...

As coisas não são assim tão simples!
Nem as janelas, as antigas!...

Beijinhos!

Virgínia do Carmo disse...

As coisas não são mesmo nada simples.

Beijinhos, Lídia.

Pérola disse...

As janelas são uma bela temática.

Gosto de cortinas e espreitar por elas, também do lado de fora.

Sou curiosa, só isso.

Um beijinho

OceanoAzul.Sonhos disse...

Janelas, e todo o misticismo à sua volta, criado por quem as lê, por quem as imagina.

Bjs Lídia
cvb