segunda-feira, 27 de maio de 2013

Era pelo silêncio que eu seguia

imagem google s/ ind. de autoria
Os rohingya vivem em campos
de onde não estão autorizados a sair.
Sem cuidados médicos, sem trabalho,
sem protecção do governo,
que lhes exige que renunciem à sua identidade.

Jason Szep, - Sittwer -  Birmânia (in  Jornal Público
26 maio 2013)

Era pelo silêncio que eu seguia
a contornar vagarosamente
o verde novo das árvores,
a evitar o canto dos pássaros
que matizava o ar.
Levava nuvens anoitecidas atadas
ao cabelo e a cada flor que morria
contorcia as mãos no desespero
de a não poder libertar.

Da pedra dura do silêncio arranco, enfim,
as páginas onde li os destroços e a morte.
Páginas sobre páginas 
de atrocidades e ódios amontoados,
 ininteligíveis.
Outra vez os campos de concentração
onde  só a dor e o sofrimento extremo vingam.

Fico aqui de braços prostrados
pedindo água à Poesia.
Fala-me do Anjo da História, a Poesia.
E de como também ela tem as asas presas,
os olhos e a boca postos em espanto.
De como também ela se queda, em terror,
no mutismo invencível do incomunicável.
Fala-me de como vai perdendo a esperança
na humanização da Humanidade.*

Em negação, dedilho coisas pequenas:
o sono do gato, o beijo do sol nas cerejas
o flavescer lento dos limões…
Até me surpreender com o prosaísmo da lágrima,
palavra sobrevivente que não [me] salva.

* Expressão de António Nóvoa
Revista Criatividade, Público (26 maio 2013)





9 comentários:

JP disse...

E o silêncio é a única voz que se ouve nesses campos de concentração....

E como também vamos perdendo a esperança na humanização de Humanidade.

Beijinho

Ricardo e Regina Calmon disse...

Intyenso por sí só crônica essa amiga caríssima
saudades
Ricardo
Viva la vie

AC disse...

Dói, dói sempre...
(A poesia não se pode alhear, nunca)

Beijo :)

Dilmar Gomes disse...

Pois é amiga Lídia, a poesia comprometida com a realidade pode sangrar,porque o homem ainda está passando pela etapa da humanização.
Um abraço. Tenhas uma linda semana.

Unknown disse...

do silêncio viceja a sílaba, a saliva, o verbo



beijo

Flor de Jasmim disse...

Profundo e comovente!
Boa semana querida

beijinho e uma flor

Armando Sena disse...

O silêncio, uma fonte de ensinamento.
Silêncio e poesia caminham muitas vezes de mãos dadas e no silêncio dos poemas descobrimos a imensidão do sentimento.
Muito lindo este poema Lídia.
Beijo

BF disse...

A poesia tem as asas presas mas voa num sentir livre :) Adorei

Mateus Medina disse...

O que me espanta, DE VERDADE, é o silêncio dos poderosos que arranjam sempre uma boa desculpa pra invadir países quando lhes convém... e isso? O que é preciso mais para que se una uma força capaz de cessar esse absurdo?

Belo poema, como sempre =)

bjos