quarta-feira, 10 de julho de 2013

Até ao fim do caminho...



Soa perto o eco indelével de outros dias,
um brando pensamento anterior à viagem
respirado no  inverso  destas partículas de ar
infetadas, espessas de alienação.

Segue-se o mergulho
em mil devaneios confusos:
os estames da flor, em forquilha
num arbusto que os olhos nunca viram,
uns retoques de azul num rosto magoado
Uma maçã vermelha, [envenenada]
semelhante em tudo a uma  mentira.

No semblante, nenhum rio ou mar
dá guarida ao barco de papel atracado
entre os dedos.
A verbosidade fácil escorre das bocas de uns
[distantes dos barcos parados em mãos feitas para marear]
e o "far nient" de outros a imperar,
a atingir, sem cansaços, um doce despropósito.
Prestes a azedar!? 

Sobre as cabeças como cinza acesa, cai
o burburinho constante das incredulidades,
a vulnerabilidade crescente
das coisas belas do mundo,  da vida
e, em reflexo, o fluxo e o refluxo do sangue 
a rugir, desnorteado, 
erguendo a voz, rasgando alguns corações
desmantelando mapas, credos, constelações.


Contudo, até ao fim do caminho, 
haverá sempre um caminho por onde ir
bastando para isso que o caminhante 
o faça existir.



A imagem é uma recriação (minha), óleo sobre tela com 1:10 m x 68cm,
 a partir de uma pintura de Adélio Sarro que já aqui publiquei.






14 comentários:

Graça Sampaio disse...

Desmantelando tudo, Lídia. Até as nossos pensamentos mais íntimos.

Que bem transcreves a situação do momento que é tão cinzenta. E no entanto com palavras tão vivas, tão brilhantes!

Beijinhos

Graça

O Puma disse...

Se fosse o fim

levava os meus cães
Bjs Poeta amiga

Isabel disse...

Muito bonito.
Por acaso fui logo ver de quem era a tela, mas não estava identificada. Lembra-me alguma coisa de Almada Negreiros, não sei porquê.

Acho muito bonita a pintura.

Um beijo

Rosemildo Sales Furtado disse...

Oi Lídia! Passando para te cumprimentar e apreciar mais uma das tuas belas criações.

beijos e muita paz pra ti e para os teus.

Furtado.

Anónimo disse...

Na verdade,
Todos ansiamos dentro de uma busca complexa. Procuramos respostas à deriva em nós – dentro, nos outros, na distância a parecer-nos diferente, possível. Sempre que nos assalta a dúvida, nos trespassa um destino, entendemos - importante é continuar até ao fim do caminho!
mfc

Unknown disse...

um poema a se trilhar: em todos os seus caminhos


beijo

Dilmar Gomes disse...

Amiga Lídia, eis um poema belo poema. O tom sombrio e amargo não retira a qualidade do mesmo.
Um abraço. Tenhas uma boa noite.

Isabel disse...

Lídia
gostei muito da pintura de Adélio Sarro, que não conhecia. Estive a ver na net e tirei algumas imagens. Coloquei uma num post.
Venho agradecer-lhe, por me ter dado a conhecer, aqui no seu blogue,o artista.
Obrigada.

Lilá(s) disse...

É bom ler este belo poema, no meio desta insanidade política em que nos lançaram.
Bjs

Rogério G.V. Pereira disse...

"Contudo, até ao fim do caminho,
haverá sempre um caminho por onde ir
bastando para isso que o caminhante
o faça existir."

Versos rectos, com cor dentro

Duas telas. Gosto delas...

Lídia Borges disse...


Isabel,

esta tela foi pintada por mim. É uma reprodução conforme referencio, abaixo do poema.
Se vir bem, fica longe do original. ;) Ainda assim... Eu gosto.

Lídia

Isabel disse...

Sim, eu vi.
Gostei muito da sua tela e fui procurar o original.
Também gostei do original e procurei mais trabalhos do autor.

Dou-lhe os parabéns pelo seu talento, também para a pintura.

Bom fim-de-semana!

ana disse...

A pintura é uma arte excelsa.
Esta reprodução é bonita e vejo-a como um exercício. Pinte como a escrita o que lhe vai na alma.[Sorry]
Beijinnho. :)

Manuel Veiga disse...

alarguemos as veredas - por nossos pés...

beijo