quarta-feira, 21 de agosto de 2013

árvores




Planto uma árvore bem no centro do poema.
Abrigo-me do calor, respiro-a e ganho tempo.
Gosto de a ver crescer.
Deixo que os sentidos se percam na oscilação das folhas
verde-claro, verde-escuro, escuro, claro num  bailado com o vento
Impressiona-me a resistência dos troncos,
a bondade da seiva nos ramos.

 Nunca tive uma casa na árvore. Como sonhei com ela!
Com o tempo aprendi a ter em cada árvore, uma casa
de cortinas verdes que filtram a luz e perfumam o pensamento
Nela a poesia nasce como passarinhos dos ovos
como frutos das flores, como raízes da terra.

Faltam-me sempre árvores:
a cerejeira que subia até ao pátio da casa da avó
para oferecer as cerejas rubras e doces,
a figueira ao fundo do quintal da infância,
o salgueiro à beira-rio, os enormes plátanos da vila,
as oliveiras carregadinha de símbolos e azeitonas
as tílias frondosas da avenida,
os altos pinheiros, os carvalhos, os sobreiros…

Debruço-me cada vez mais sobre elas
e vejo-as dizimadas pelo fogo,
chamas gigantes de incúria e crueldade. Falta-me o ar.

Conheci uma terra – a terra do sempre
onde a soberania das árvores impera sobre
a construção, o negócio, a madeira ardida.

Tão diferente desta terra do nunca mais...
onde  árvores e pessoas são negligenciadas, 
maltratadas, desvirtuadas, deslembradas.

Sem direitos que o Direito  ardeu 
quando a Beleza e a Vida deixaram  de contar
para o homem sumido do Poder, hoje.


    

12 comentários:

Rosa dos Ventos disse...

O poema ao serviço da realidade!
Tanta árvore dizimada!
Também eu tenho a memória cheia de verde, de ramos, de folhas...

Abraço

Paula Barros disse...

Logo ao ler o poema fui tendo vontade de morar neste poema árvore.
Mas ele me chamou para a realidade, a realidade da negligência que é tão grande.
abraço

deep disse...

Como eu gosto de árvores! Bonito poema, Lídia. :) Bjs

Graça Sampaio disse...

Que bem (d)escrito! E tão sentido!

Muito bom!

Beijos da terra do sempre.

Mar Arável disse...


Na verdade
Bjs

Emília Simões disse...

Bom dia Lídia, um poema belíssimo em que os sentimentos puros, cristalinos, verdes como as árvores que povoam a memória de quem ama a natureza são exaltados e jamais serão destruídos, porque enraizados ninguém pode ousar aniquilar. Um beijo Ailime

Unknown disse...

a soberania das árvores, belo



beijo

BL disse...

Inspiradoras e admiráveis.
Sempre.
As árvores
e a tua poesia.

Beijinho grato :)

Manuel Veiga disse...

poema-denúncia. pungente e belo...

beijo

Daniel C.da Silva disse...

Uma perfeita ode à arvore, que sim, dá um belo tema.
E termina de forma majestática. Gostei muito.

Beijo amigo

AC disse...

Poderá o homem mudar? Ou a ganância, também ela, faz parte dos ininterruptos ciclos?
Ah, Lídia, vale-nos o olhar dos poetas...!

Beijo :)

Maria João Brito de Sousa disse...

Não podia passar por estas "Árvores" sem lhes deixar o meu abraço...eu sei lá viver sem as ver, sem as lembrar...


Outro para si, Lídia!