domingo, 11 de agosto de 2013

Noites de sol


Estou aqui
vendo o sol nascer à hora de ser noite.
Os relógios não falam a minha língua
e o meu corpo vive uma vida só dele.
Fiapos, nuvem esfarrapadas
falas soltas mal articuladas
descem rasando a vanidade da luz.

Liberta-se agora uma frase completa
sem voz que lha não concedo.
Por sobre o meu pensamento flutua.
É como um insecto indistinto zunindo
zunindo monocórdico.Fluido cósmico
que atravessa o espaço perfurando  a luz.
Cheira a éter.

Deixo-o  ardendo. Habituo-me ao sibilo agudo
e no habituar o esquecimento.
Capto do lado oposto uma outra frase fresca e sã
como se ma tivesses dado numa manhã de primavera
Fujo com ela para uma casa vazia.
Percorro-a, peso o orvalho às sílabas. Meço
o perfume ao sentido e sinto que floresceu.
  
Encontro-te, Serenidade
Talvez possa agora ignorar o sol
e a sua alegria lampeira no despertar.
Talvez possa agora dormir. Dia fora
até que se faça hora de ser dia.


Este não é já o "sol da meia-noite", na Noruega pois, nesta altura do ano, o pico do verão já passou. Mas é o sol das 4 horas da manhã que só pelas 23 terá o seu ocaso.

Sinto alguma dificuldade em dormir, apesar das cortinas negras. Escrevo. Prestável se faz a luz.






15 comentários:

Branca disse...

Uma experiência diferente que imagino bem interessante!

Beijos

Duarte disse...

Que cadência, a destes versos! Gosto, até posso dizer que me deixaste algo meditabundo, ante tanto arte no escrever.
Também confesso que algum termo me levou ao dicionário. É que isto de não estar ao dia, nota-se.
Abraços de vida e parabéns

São disse...

Este poema trouxe-me à memória as fascinantes noites brancas da tão bela cidade de Sampetersburgo...

Sobre a grande perda que a morte de Urbano Tavares Rodrigues significa para a cultura portuguesa , falei no meu blogue "são"

Bom regresso de férias.

Dilmar Gomes disse...

Amiga Lídia, eis um poema lindo, lindo, lindo! Gosto muito deste estilo intimista, sobretudo, quando os versos são densos e bem construídos. Parabéns!
Agradeço tua vista lá no meu modesto espaço.
Um abraço daqui do frio sul do Brasil.
Tenhas uma linda semana.

Teresa Brum disse...

Uma experiência inigulável.
Linda sua foto, grande beijo em seu coração e bela semana.

Rita Freitas disse...

Muito bonito mesmo.

Bjs

Mateus Medina disse...

Bonita foto, bonito poema, mas isso não é novidade.

Mais uma experiência pra vida. Acho que teria imensas dificuldades também, mas o pior deve ser quando é ao contrário... 20 horas de noite, sem a luz do sol.

Bjos

Mar Arável disse...

Belas memórias

Bj

Maria Rodrigues disse...

Simplesmente maravilhoso.
Como eu precisa de encontrar essa serenidade que tão longe de mim tem andado ...
Beijinhos
Maria

Luis Eustáquio Soares disse...

aqui o português que fui alhures me fez saudades do que não tinha sido,
se tivesse estado. aqui o português
que fui nenhures me fez navegante, exílios, paisagens, belezas. aqui estou em casa, o mundo inteiro.
b
less

Rogério G.V. Pereira disse...

Às vezes a Serenidade a encontramos onde a procuramos... e fica a memória dessa frase fresca e sã

Sandra Subtil disse...

É quando leio poemas como este que me lembro quão pequenina sou...
Como ouso pensar que escrevo?

Beijinho

Unknown disse...

a hora de ser dia há de acontecer, talvez num arrebol do olhar



beijo

© Piedade Araújo Sol (Pity) disse...

essa noite esse sol em inspiração alta a alma da Poeta
que bem escreves!

:)

Emília Simões disse...

Olá Lídia, um poema tão belo que me deixou submersa no brilho das suas palavras reflectidas na imagem magnífica que partilha. Um beijinho. Ailime