quarta-feira, 4 de setembro de 2013

A Realitupia

A realitupia é uma avezinha que eu inventei para avivar as cores do jardim dos passarinhos que fica na rua mais bonita do meu país de sombras.
É um pássaro pequenino, dourado e verde com asas translúcidas de vento.
Por vezes, atreve-se a pousar na mesa debaixo da árvore onde escrevo para debicar minúcias, entre os meus versos.
Deslumbra-me! Acontece-me, quase sempre, uma repentina vontade de a tocar como coisa real mas, antes que tenha tempo de balbuciar qualquer gesto, já ela bateu asas, desenhando-se infinito.E é como se nunca tivesse estado ali.
Sigo-lhe, na distância, a vertigem do voo, as asas em amplo ângulo, o corpo frágil, leve, o planar aberto a qualquer desvario.
Subitamente a minha realitupia não é mais do que um minúsculo ponto verde a tremeluzir na largueza do céu. Magicamente, outros pontos iguais aparecem à sua volta. Confundem-se, avolumam-se, formam nuvens densas. Descubro, deste modo, que não é única, a minha realitupia.
Começa a chover. É uma chuva fina como poalha de oiro. Pequeníssimas gotas de água unidas por fios de luz de aveludadas transparências.
Uma chuva leve, porém capaz de varrer a loucura dos homens, de lhes lavar a alma e harmonizar o pensamento – sempre que um homem sonha o mundo pula e avança - Não me venham dizer que é utopia!
A minha realitupia é filha do sonho e da vida e voa livre nas veias dos homens de coração puro. Força-os a olhar para cima, para verem a luminosidade dos pontos verdes que adejam, reflexos visíveis da esperança, mas lembra que tanto brilho pode, momentaneamente, cegar. É preciso aliviar os olhos, olhar também em frente e à nossa volta, com todos os sentidos, em alerta. E, se doer, gritar um Basta de revolta, um Assim Não. Inventar vastidão ao “possível” e descobrir os recantos de um espaço para construir cidades mais bonitas, mais “reais”, mais autênticas…
Talvez então, a realitupia possa ser uma ave verdadeira pousada sobre a mesa dos meus sonhos.





Imagem net s/ ind. de autoria


10 comentários:

Mar Arável disse...

A sua realitupia
existe
estou a vê-la
nos seus poemas
Também me acontece ciclicamente
no tempo das andorinhas
no alpendre mesmo em cima da mesa
onde aprendo a voar

Bjs

Unknown disse...

ave, ave poeta
ave/nave/salve



beijo

Armando Sena disse...

Uma utopia com toques de realidade ou será o contrário?
Que bela "crónica" deliciosamente contada.
bj

Duarte disse...

É uma faceta dos pássaros, desconfiar. Só aquele que cresce nas tuas mãos pode chegar, mas não sempre, a comer dessa mão.
Gostei desta semelhança. Oxalá viesse uma chuva assim que levasse todo aquilo que nos apoquenta.
Beijinhos

lino disse...

Oxalá!
Um beijo

Daniel C.da Silva disse...

Está francamente belo... demais.
Muitíssimo belo. Parabéns...

Beijo amigo

Flor de Jasmim disse...

Talvez quem sabe!
Excelente semelhança.

beijinho e uma flor

Suzete Brainer disse...

Este sonho é sublime,

tem asas de poesia

e pousa de preferência

em coração puro de beleza...

Belíssimo e encantador, Lídia!

Beijinho.

Anónimo disse...

Gostei do texto, de saber outro nome para esta ave maravilhosa! É bom saber ver, saber sonhar e dizê-lo assim.
Bji

AC disse...

Lídia,
Partilho essa realitupia. Por inteiro.

Beijo :)